Páginas

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O tempo redescoberto

Há um ditado, não, há?, que diz "Deus está nos detalhes".
É como saber qual é a língua materna de uma pessoa num momento de descontrole, em que ela não consegue acionar uma segunda ou terceira língua, por mais que as conheça, porque ela volta.
Não sei se isso é verdade, nunca passei por isso nem vi ninguém passar. Mas, na noite passada, eu pensei sobre outro detalhe revelador: não a língua em que reagimos, mas se reagimos dizendo "sensacional!", "bravo!", "estupendo!".
Ontem eu fui nadar. A piscina não é daquelas, mas, ontem, já acostumada com o ambiente, quando passei pela porta senti um cheiro tão familiar, o mesmo da escola em que eu aprendi a nadar, ou onde frequentei aulas pela primeira vez, Onodera, em frente ao Parque da Aclimação. Eu ficava na mesma turma da minha irmã, não sei por decisão de quem, e a única coisa que eu conseguia fazer direito, como os outros, ou melhor do que eles, era encostar a bunda no chão - não sei o motivo, talvez treinar ficar debaixo d'água, até hoje tem quem nos mande fazer isso. O professor (ou a professora, realmente não me recordo) estimulava umas corridas e eu sempre ficava muito pra trás, lembro bem disso. Pensando melhor, eu nem devia ser a melhor encostadora-de-bunda-no-chão, muito provavelmente os outros alunos me davam o prêmio de consolação pra eu sair me gabando, esquecendo do meu fracasso em todas as outras atividades propostas.
Então, ano passado, eu me propus uma tarefa: ler Em busca do tempo perdido, do Proust. Deu na veneta, um dia eu fui no meu sebo preferido, achei o primeiro livro e mandei ver. Era uma letra pequena numa folha quase sem margens, lembro de ler, em São Paulo, de noite, junto da minha prima, lembro de não avançar e achar difícil a linguagem. Nós duas vasculhamos, lá, diversas lojas procurando os volumes seguintes, voltei com mais dois.
Aí eu confesso minha ignorância, humildemente, e venho fazer este texto pra um dia reler e relembrar. Todo mundo fala do diabo da madeleine, porque a memória em Proust isso e aquilo. Eu vi lá, nos idos do Caminho de Swann, o diabo da descrição e mega boiei. Nem achei genial. Segui adiante. Para à sombra das raparigas em flor. Fiquei apaixonada, o livro todo colorido, rabiscado, com pedacinhos copiados distribuídos por aí. Também segui adiante, até o começo desse ano de 2008, quando, depois de muitos calços e percalços, me senti cansada, desanimada, já não entendia nem me identificava com o que lia e deixei de lado o último livro até que, essa semana, resolvi tentar de novo; achei uma pena desistir faltando tão pouco, talvez o livro crescesse em mim depois de terminado, ficasse marcado pra eu reler aos quarenta anos, idade que já ouvi dizer ser a apropriada para fazê-lo.
Até que, ontem à noite, deitada na minha cama, não "bravo!", "estupendo!" ou o diabo, soltei uma série de "caralho!" e "filho da puta!". Porque a minha língua materna é de baixo calão.
A madeleine não é aquela merda que aparece no primeiro livro. Caralho! Filho da puta!
Acompanhando um site que comenta essa obra, tantas pessoas dizendo como pouquíssimos são o que terminam a jornada, e que o final dela só é compreensível para quem a fez, um passo depois do outro. E eu ainda não terminei, mas nem sei se precisa. Eu realmente não sei como alguém tem a coragem de soltar um:

"Sim, se, graças ao esquecimento não pôde estabelecer nenhum laço, tecer malha alguma entre si e o momento presente, se ficou em seu lugar, em seu tempo, se conservou sua distância, seu isolamento no côncavo de um vale ou no cimo de uma montanha, a recordação faz-nos respirar de repente um ar novo, precisamente por ser um ar outrora respirado, o ar mais puro que os poetas tentaram em vão fazer reinar no Paraíso, e que não determinaria essa sensação profunda de renovação se já não houvesse sido respirado, pois os verdadeiros paraísos são o que perdemos."
Os verdadeiros paraísos são os que perdemos!! Não é pra mandar se fuder? E emenda:

"Deslizei célere sobre tudo isso, mais imperiosamente solicitado como estava a procurar a causa dessa felicidade, do caráter de certeza com que se impunha, busca outrora adiada. Ora, essa causa, eu a adivinhava confrontando entre si as diversas impressões bem aventuradas, que tinham em comum a facilidade de serem sentidas simultaneamente no momento atual e no pretérito, o ruído da colher no prato, a desigualdade das pedras, o sabor da Madeleine fazendo o passado permear o presente a ponto de me tornar hesitante, sem saber em qual dos dois em encontrava; na verdade, o ser que em mim então gozava dessa impressão e lhe desfrutava o conteúdo extratemporal, repartido entre o dia antigo e o atual, era um ser que só surgia quando, por uma dessas identificações entre o passado e o presente, se conseguia situar no único meio onde poderia viver, gozar a essência das coisas, isto é, fora do tempo."

"Muitas vezes, no decurso da existência, a realidade me decepcionara porque, ao vislumbrá-la, minha imaginação, meu único órgão para sentir a beleza, não se lhe podia aplicar, devido à lei inevitável em virtude da qual só é possível imaginar-se o ausente."

"Era uma remota impressão, onde se misturavam reminiscências de infância e de família, e que eu não reconhecera de pronto. Indagara com raiva que estranho me vinha perturbar, e o estranho era eu mesmo, a criança que fora, logo suscitada pelo livro que só dela tomava em mim tomava conhecimento, só a ela invocava, não querendo ser visto senão por seus olhos, amado senão por seu coração, ouvido senão por seus ouvidos."

E a discussão sobre arte verdadeira, chega a gente, que não consegue parar de olhar pro próprio umbigo, se sente um lixo.

Como é boa essa sensação de fechar um ciclo. Um final, ou quase, e um propósito, entender.
Aí, depois de um ano e tal, tantas centenas de páginas, tantos raciocínios perdidos e espantos de identificação, dá pra dizer que esse livro é do caralho. Não sei que elogio é esse, se é benquisto ou não, mas ele é. Nem dá pra dizer de quando eu crescer, porque não vou. Fica a admiração e a promessa de volta.

Nenhum comentário: