Vez ou outra, quando se resolve fazer uma faxina na minha casa, reaparecem uns caderninhos, daqueles de estampa claramente antiga, folhas amareladas e cheiro característico, delicioso, de coisa velha. São dois, creio eu, um meu e outro da minha irmã, da época em que começamos a ir para a escola - ou seja, desde sempre - em que meus pais e professoras (nem adianta aqui colocar o masculino genérico, né, todo mundo sabe que eram mesmo mulheres) se comunicavam. Tem algumas anotações engraçadas de coisas que dissemos e, no meu caso, muitos e muitos recados de remédios a me serem ministrados, religiosamente, em resposta às minhas constantes febres e inflamações.
Quem me conhece um pouco melhor já me ouviu contar como eu sofri anos de uma otite crônica porque meu brilhante pai, ao ler a prescrição receitada pelo médico, julgava do alto de seus conhecimentos curativos ser muito alta a dose de antibiótico e, sendo pró-ativo como desde então ele nunca mais chegou a ser, cortava-a pela metade, ou ainda menos. Resultado: a infecção passava para dias depois voltar, desafiando a ciência com a sua persistência. A situação perdurou até que minha mãe, não sei como, descobriu e, conhecendo-a como eu conheço, depois de uma crise de apoplexia, de um esfrega no meu pobre pai que resolveu o problema.
Apesar de ser de uma geração muito mais registrável do que a de meus pais - minha certidão de nascimento, por exemplo, é fidedigna, nós todos temos certeza do dia em que nasci (apesar de minhas crises astrólogicas a esse respeito) -, com muitas fotos e os tais caderninhos que toda vez que eu encontro adoro folhear, ainda é muito menos do que essas crianças de agora, que têm milhões de fotos e filmes gravados em computadores através de máquinas digitais. Eu às vezes penso que, quando a Clara crescer, vai sentir o mesmo prazer que eu sinto agora, remexendo num passado já muito distante e esquecido, mas potencializado pelo número maior de registros de que ela vai dispor.
E eu, como tia coruja, gosto de pensar que vou contribuir para isso, não só com as minhas memórias, mas com os pequenos causos relativos a ela que vira e mexe eu resolvo contar. Hoje foi um dia desses; ela não foi à escola para me acompanhar - e à minha mãe - numa visita a uma fazenda da região, que talvez interessasse pesquisar no meu trabalho. Tudo muito lindo, maravilhoso, eu enrolei um tempão para sair de casa, depois ela enrolou, buscado todos os brinquedos possíveis e imagináveis de que ela precisaria sem falta, e fomos nós. Ela perguntando a cada cinco minutos onde estávamos, aonde iámos, e por que era tão longe até quem em um dado momento, já no fim da viagem e sem aviso prévio, o meio litro de suco de uva que ela engolira pouco antes (sim, meio litro, tentem vocês controlar uma criança empolgada com um copinho novo) teve que sair.
Aí foi aquele desespero, minha mãe tentando conter a poça, eu sem saber o que fazer, no meio de uma curva, seguindo adiante para parar em local um pouco mais seguro. Toca limpar mais ou menos o carro, tirá-la da cadeirinha tentando não me lembuzar toda, sentá-la numa muretinha, limpá-la mais ou menos, tirar a roupa dela tentando não lambuzá-la ainda mais, limpar mais um pouquinho, colocar outra roupa, torcendo para ela não vomitar mais, e tudo enquanto ela ficava ali, no sol, meio passada, com as sardas ainda mais salientes, reclamando de frio num calor estonteante.
Podem me acusar de mau gosto ou mesmo maldade, mas foi tão bonitinho, ela toda molinha, com carinha de nojo e sem entender o que acontecia. Claro que em cinco minutos, limpa e depois de beber um golinho de água, ela já estava de novo toda serelepe, vendo os bois e os cavalos e gritando "o vento, o vento!!!" pendurada na janela do carro. E depois ela almoçou otimamente, correu por todos os lados, brincou com um graveto num laguinho, subiu escada, desceu escada, ensinou a todo mundo o caminho do banheiro, ordenou que só se andasse pisando em pedras grandes, etc.
Quando íamos voltar pra casa, ela começou a comer um pão, enlouquecidamente, e eu falei: "Clara, agora é melhor você não comer o pão inteiro, senão depois você passa mal, né?" E ela, surpreendentemente, acatou minha sugestão sem discutir - coisa que não é muito comum, em relação a mim - me devolveu o pão, eu guardei, perguntei se ela queria um pouco de suco, água ou danone (já não me lembro), ao que ela respondeu "Não, porque depois eu vomito".
Vale também lembrar que, apesar de - na maioria das vezes - inteligível, ela não fala exatamente assim, a frase soando mais como "nã puquê apois eu iito", o que torna a coisa toda ainda mais fofa. Ah, e uma coisa que ela fala que eu pensava, no caminho, em escrever: além dela não falar, sob hipótese alguma, a palavra "minha", optando, como eu já comentei, pelo "meu" (pai, mãe, tia, mão, amiga, etc), ela sabe contar até um tanto, acho que era mais do que 10, mas ela às vezes se confunde e vai do 3 para o 7. Mas quando ela vai falar o 2, no masculino sai direitinho, "dois", mas no feminino ela só fala "dusa". "Dusa mão", "vocês dusa", e por aí. E quando ela vai dizer "1, 2, 3 e já" ela acha que 3 tempos é pouco para se preparar para qualquer coisa, portanto ela segue contando, normalmente até 14 (claro que no maior estilo U2, "1, 2, 3, 4, 7 [ininteligível] 14", ah, e tudo isso contando nos dedos), e só então diz "já".
Enfim, só pra dizer que é mesmo muito divertido conviver com uma criança, mesmo a gente ficando todo quebrado. E também é tão gostoso, vez em quando, lembrar dessas coisas que a memória da gente não consegue reter. E porque eu gosto de guardar as coisas, então, hoje, além de umas imagens mesmo lindas, eu guardo um "eu iito" e, quem sabe, durmo com um sorriso nos lábios.
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