Escrever tem sido cada vez mais difícil para mim.Falta tempo, tema, vontade; falta algo aqui que se ligava mais facilmente às palavras e que hoje flutua, etereamente, sem se prender a nada e assim se perde sem deixar rastros.
Mas, correndo o risco de me repetir mais uma vez, ainda me parece que há coisas que merecem deixá-los.
Começando do começo, talvez, eu não sei dizer quando assisti ao Once. Lembro de ser no meu quarto e de noite, mas não sei em qual quarto nem em qual noite. Nem sei dizer o que me atraiu nele, nem o que o trouxe a mim, estávamos ambos ali na internet e nos encontramos. Até há alguns dias eu não saberia dizer nada sobre a história, para além do cantarolar de uma ou outra canção e do fato de ter me tocado profundamente. Desses filmes que têm o que eu chamaria de verdade, uma sensibilidade rara, claramente realizado com uma verba modesta, sem explosões nem efeitos especiais, nem grandes nomes nem nada mesmo de muito grande, só uma verdade e uma rara sensibilidade. Entendo zero de cinema, mas o filme é lindo.
Do tipo de filme - e de livro, música, pessoa - de que eu gosto: que fala sobre pessoas e fala lindamente.
Nem sei dizer do sucesso que fez ou faz, acho que até é bastante porque ganhou o Oscar e os musicais foram muito premiados e elogiados, mas ainda assim.
Aí tem uma anedota: estava eu num evento e ouvia uma música instrumental que me soava familiar e fiquei me perguntando: "é do Once ou não é do Once?, é do Once ou não é do Once?" e eu digo muito sinceramente que eu queria muito que não fosse do Once, porque isso me obrigaria a ter de rever uma série de preconceitos que eu realmente não desejava ter de rever. Às vezes a gente tem isso, de apegar nos preconceitos e é mesmo desagradável quando eles nos explodem na cara e somos obrigados a descartá-los. Felizmente, essa não foi uma dessas vezes e afinal não era Once, mas Crepúsculo, o que é de uma ironia tão fina que chega a tornar o mundo mais bonito.
Mas assisti ao Once sozinha, de noite num quarto e chorei muito, à vontade pela solidão, porque não gosto de chorar em público. Nem sei se alguém de fato gosta, mas imagino que haja nesse mundo uma pessoa ou duas que apreciem o drama, ou ao menos não se incomodem com ele.
Guardei ali na gaveta, até que, conversando com uma dessas almas irmãs, resolvemos assistir ao musical. Meio na porra-louquice, fomos lá sem ingresso tentando descolar um, contando com uma boa sorte que nos premiou, mediada por uma gentileza impressionante, e assistimos.
Desses momentos inexplicáveis na vida, algo como meu aniversário de alguns anos atrás, em que alguma coisa acontece. Eu, que não choro em público, me perdi. Lágrimas rolaram desde antes de subirem as (metafóricas) cortinas e a intervalos regulares, a cada vez que o cara abria a boca.
Aí, e daí?, você me pergunta; e eu respondo: e daí que nada, e daí que foi lindo e desses momentos que a gente gostaria que se estendessem infinitamente, que a gente queria poder guardar na memória com todas as cores e sons e nitidez que, pelo menos a mim, são impossíveis de alcançar em retrospecto. E daí que fica a lembrança da sensação e só. E daí que o espetáculo, como tudo na vida, acaba e o que resta depois de fechadas as (metafóricas?) cortinas... resta e eu não sei o que é. Não sei o que resta e que importância tem.
Tenho um problema, na vida, no filme e no espetáculo, de não saber lidar com o fim. Sou dessas que no cinema permanece sentada até acabarem de rolar os créditos, achando que pode ter ali ainda alguma coisa. Sou às vezes recompensada, mas mesmo quando não há cena extra, quando importa, quando me importo, fico achando que não terminou de verdade. Que o "the end" é uma pausa, que aquela história vai se resolver num futuro mais ou menos próximo, que tem mais alguma coisa.
Lembro ainda de quando assisti ao Antes da meia-noite, também em casa, numa sala de tv, ele passava na televisão e eu nem sei se peguei do começo ou perdi alguma coisa. E de o filme terminar e eu pensar: tem mais.
Talvez isso só revele a minha falta de imaginação, que me leva a desperdiçar a oportunidade de criar e ficar satisfeita com um próprio final que me agrade, mas eu tenho também a loucura de não me contentar com a minha versão das coisas, mas de querer que a realidade que me é externa coadune com a minha vontade. Raramente isso acontece, mas que se há de fazer?
Conversava uma vez com ma amiga que assistiu aos três filmes do Linklater e não entendeu o barulho que se fazia por eles. Eu daqui acho que parte do encanto está em assistir ao primeiro ali aos, digamos, doze anos de idade e de repente, quase dez anos depois, ter a oportunidade de descobrir o que aconteceu.
Porque já diz aí alguém: só acaba quando termina e, até terminar, eu daqui fico achando que alguma coisa vai acontecer.
Ao fim do espetáculo, quando foi possível respirar, falar, ter cá alguma esperança, perguntei a D.: acabou?
E a resposta, simples e, para mim, difícil, foi: acabou, sim. Não ponto-final-parágrafo, mas mesmo fim, não tem mais parágrafo e a página seguinte, é "o fim", essas pessoas que nem existem seguiram suas vidas, seguiram em frente e, se olharam para trás, isso não as impediu de seguir adiante.
Ok, então, acabou.
Ponto final.
Parágrafo.
Fim.
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