Nesses tempos de seca venho só registrar minha frustração.
Faz, acredito, parte do contexto todo da seca, o silêncio que aqui se estabeleceu há tanto e tanto tempo.
Mas a realidade é, talvez, ainda mais cruel.
As palavras me fogem.
Eu tento alcançá-las, mas elas ficam bem ali, no limiar entre luz e sombra e do lado escuro onde não posso vê-las, quase ao alcance, sei que estão ali, mas não consigo chegar.
Pode ser algo do hábito de lê-las em vernáculo adotado, pode ser do esquecimento total e amplo que agora chega a elas.
Mas elas fogem e a frustração é imensa e a sensação de que tudo que escrevo chega a ser quase o que eu queria dizer, mas não exatamente.
Aí eu me pergunto eu, da idiotia coletiva, qual o valor real de ser exatamente o que quis dizer, se um outro vai ler e entender a partir do léxico pessoal dele, interpretando e adotando talvez meu vernáculo, mas sem jamais se apropriar dele completamente.
Aí respondo eu que não sei e continuando a história da cobra que come o próprio rabo, talvez me interesse só a mim, que não só me escrevo como me leio.
Assisti esses dias na televisão um programa sobre o Gabo e um curso que ele deu uma vez no Brasil, não me lembro em que universidade, em que conversava com jovens escritores e a aluna, hoje publicada mas cujo nome obviamente me escapa, dizia que ele tinha um conselho, ou uma lei, ou sei lá o quê: sempre comece uma história sabendo como ela vai acabar.
E eu não sei.
Não exatamente.
Nem sei nem exatamente como começa-la, nem mediá-la, quando tudo o que tenho é a sombra que quer clarear, mas permanece breu.
Melhor então o silêncio?
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