Tive uma amiga, uma vez, que dizia que a gente começa a escrever porque dói. Ninguém começa porque está tudo bem, lindo e maravilhoso, é mesmo pra despejar o fel, pra soltar farpas e se livrar um pouco da dor.
Já concordei e discordei muito da premissa.
Mas já tive também algumas crises, ou talvez colocando de maneira menos melodramática, dúvidas, quando achei que estava tudo como bem demais e o texto parecia perder o sabor. E sei lá se perde, ou ganha, acho mais é que a gente vai mudando e é enriquecedor poder ir registrando as mudanças, e isso do tempero a gente não pode acertar sempre. Às vezes é sal de mais, às vezes de menos, e só raramente é a perfeição, que a gente segue buscando pra nunca mais encontrar. Tenho aqui extremamente vivas na memória - e no paladar - dessas lembranças, perfeitas porque passadas.
E agora sinto aqui no peito um aperto que havia algum tempo que não sentia, que é algo familiar, mas também novo, e tava bem desligando tudo e me resignando ao sono quando pensei "poxa, não foi assim que começou?"
Se algo de dor é o pretexto para a fala, por que não vir, já entrada a madrugada, revelá-la?
Nem sei se dor é a palavra, vasculhei aqui pelas entranhas e cheguei à conclusão que é mais uma paralisia, algo de medo e cansaço. Acho que eu, que sempre me gabei de funcionar relativamente bem sob pressão, começo a senti-la e não me agrada. Acho que é muita coisa, tudo ao mesmo tempo agora, e o que há de real e irreal se misturando a tensões e expectativas e culpas, e o resultado disso tudo é um aperto, incômodo mas não sufocante.
E o frio que vem chegando, que é bom e mau. E um cérebro a mil por hora tentando comandar um corpo a cinco.
Vejo à minha frente uma paisagem, já muitas vezes contemplada, que já despertou algo de um bem-querer gostoso, mas não essa noite. E o tempo insiste tanto em correr, e eu insisto em querer que ele desacelere e a gente segue, assim, no desencontro.
Não era Vinícius quem dizia alguma coisa sobre essa arte?
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