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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Touro

Ultimamente, meu sono tem sido pior do que costumava ser.
Estou um tanto sem inspiração pra literatura, o que não deixa de ser estranho. Aí as leituras noturnas são aquelas do trabalho, que não inspiram bons sonhos. Tive seriamente de parar de fazer isso uma época em que era pesadelo toda noite, galera se matando na maior.
Como alternativa, vez em quando recorro à música, o playerzinho que tem a mesma lista há séculos, de que eu às vezes canso, às vezes não.
Foi nessas que eu comecei a ouvir tudo que tinha de instrumental no aparelhinho, desde os poucos Yamandus até o Brahms que me fascinou tanto, há já tanto tempo. Engraçado como associei essa música ao Proust e já não consigo ouvir sem pensar no Vinteuil.
Brinco, mesmo, de associação livre.
Enquanto ouvia os violinos de que gosto tanto, comecei a me incomodar com os barulhos da minha mente. Meio que já sabia, mas ficou tão claro pra mim que eu não consigo me impedir de ficar o tempo todo pensando e o modo como essa característica me irrita. Sem "ah, sou inteligente demais, super penso o mundo e tudo que me dizem" bla-bla-bla, mas eu fico mesmo o tempo todo cantarolando a música, ao invés de simplesmente deixá-la ser percebida pelos sentidos. É o normal, isso?
Tive então uma epifania: é esse o motivo de eu nunca gostar de nada que ouço pela primeira vez. É nunca, mesmo, com todo o peso da certeza. Porque não consigo cantarolar junto e é esse o meu jeito de ouvir.
Eu só gosto do que conheço. Acho que o que expande um tanto meus limites e me salva da perdição absoluta, é que, vez por outra, eu me permito conhecer as coisas, para daí gostá-las. Começo na quase indiferença, enquanto faço outras coisas, sem prestar muita atenção, só pra ir amaciando, registrando para depois reconhecer e, talvez, me apaixonar.
Isso foi numa noite de pseudo-insônia destas.
Aí hoje fiquei pensando no quanto gosto da estrada. Nem tenho aquela super paixão por dirigir o tempo todo, mas gosto da estrada. Minha paixão é inconstante. Mas aí, hoje, enquanto o sol arrasador detonava minha pele e ia chegando ao limite do suportável, me dei conta de outra coisa: eu não gosto do que não conheço por causa do diabo da lua em touro.
Não é fantástico?
Não entendo nada de astrologia, apesar de sempre querer saber. Sou, aí, muito da egocêntrica e quero saber tudo sobre meu mapa; falta espaço pra aprender sobre os dos outros.
Se é verdade ou não, não sei dizer e nem me importa. Acho é muito libertador poder explicar essas pequenas partes do que somos, atribuí-las a qualquer outra coisa que não à gente e ter, quem sabe, um pouco de paz. Eu, quando ouvi sobre o meu, confesso que fiquei um tanto pasma em perceber como algumas coisas encaixavam muito bem, e o processo todo me ajudou a entender algumas coisas sobre mim. É algo bizarro uma pessoa totalmente estranha te explicar comportamentos seus que, por vezes, não são tão legais, mas dá também como que um alívio, esse ver-se por outros olhos. Olhos lunáticos.
Enfim, porque eu pensei que devia contar e contei.
Finalmente começou a chover e chegou um vento fresco, pra embalar a noite.
Hora boa é sempre hora de voltar.

3 comentários:

Anônimo disse...

:)

Só pra deixar um sorriso.
Cajuína

Loy disse...

gosto muito de estrada também
até evito de pensar, porque vou muito pouco a ela.
Sempre fico um pouco triste quando chego ao destino, independente de quanto queria chegar -- mas com a variante de possiveis desconfortos térmicos e/ou a ausência do Dramin

M. disse...

Eu acho que ambos os desconfortos, térmicos e enjoativos, são confortavelmente resolvidos com vento. Desgosto de ar condicionado, gosto de sentir o ventão na cara, embaraçando os cabelos, refrescando e fazendo a gente se sentir mais normal.
Mas é mesmo bom demais, né? Gosto também de ir. Voltar pode ser ainda melhor.
Bj