Tava aqui ouvindo o Dr. Horrible e antecipando o momento em que vou passar a odiá-lo, depois da overdose. Tão triste, isso, né, que todas as coisas tenham de ter um fim.
Lembrei hoje do colégio em que estudei, em que os alunos tinham armários e eu dividia o meu com uma amiga, que não lembro se era a Tati ou a Ju ou ambas. Lembrei que quando era a Tati (acho) a gente ia no depósito de doces que tinha perto da escola e comprava um sacão de doce de leite, aquele de chupar, e guardava no armário, aí na hora do almoço a gente pegava um lençol amarelo e estendia debaixo de umas árvores com o doce e ficava ali morgando um pouco, antes de voltar às intermináveis aulas de química. Química de tudo que era jeito, quali, quanti, físico-, orgânica, inor, laboratórios e mais laboratórios.
Hoje, quando passei em frente a um depósito de doces, me peguei lembrando do armário e senti uma vontade não usual de voltar e tentar aproveitar mais o que tinha de bom naquela época. Estranho, porque eu não sou muito do tipo que se arrepende e, apesar de viver com eternas saudades, não sinto o desejo de voltar e passar de novo pelo que já foi. Acho que aceito um pouco demais aquela história de cada coisa em seu lugar, etc. Foi o que deu pra ser; sempre podia ter sido melhor, mas sempre podia ter sido pior. Mas senti essa saudade do armário que deve ser uma metáfora pra alguma outra coisa que, agora, não identifico. Acho que, então, eu era muito mais ativa do que sou agora, passava o dia na escola, aquele cotidiano quadradinho tão diferente do atual, em que quem manda em mim sou eu e não me sinto pronta pra essa responsabilidade. Dos lados ruins da vida na academia que é, de fato, extremamente solitária.
Mas eu era também o cúmulo do caxias e ninguém pode ser muito feliz sendo tão rígido como eu era. Eu dou risada, hoje, das coisas que fiz e disse, mas faz parte, né? Fui uma adolescente excentricamente pouco rebelde.
Tava hoje arrumando meu quarto e encontrei uma latinha que minha tia me deu, pra guardar brincos e colares ou sei lá o que, e ela fez uma pequena dedicatória a lápis, como ela costumava fazer, e a data era 99 e eu fiquei tentando calcular, estupidamente, quantos anos eu tinha então e tentando lembrar de quando ela me deu e de como eu era e já não era possível. Ai, o tempo, que feliz ou infelizmente leva tudo embora.
Tenho sentido, nos últimos dias, uma espécie de frustração, ou talvez um vazio, uma não vontade de fazer as coisas que costumo gostar de fazer e acho que, quando a gente quer muito muito uma coisa, quando a consegue vem de brinde isso. E agora, o que eu vou querer? Como se a vida fosse uma sucessão de desejos inalcançáveis, que quando a gente acha que pegou um, percebe que ele se transformou e seguiu viagem, está ali na frente e a gente tem logo que se levantar e recomeçar a busca. A eterna insatisfação.
Não gosto da idéia, nem do sentimento, porque acho que seria justo vez em quando a gente só ficar feliz por conseguir, sem começar a girar a cabeça procurando um novo objetivo.
Talvez não seja nada disso, talvez seja só o cansaço falando alto e me confundindo.
Talvez seja o Dr. Horrible começando a cansar, mas espero que não. Prefiro odiá-lo depois, não agora.
Pelo menos o calor deu uma trégua.
Mas hoje eu não me deitei embaixo de nenhuma árvore.
2 comentários:
eu ia falar que ódio por overdose nao dura muito, e uma hora vc volta to where you once belong.
mas nem sempre.
enjoo por overdose over the years é que é mesmo irreversível. Por isso que eu não consigo mais ver arquivo X. foi muito, durante muito tempo.
E eu também não ligo mais a TV na Warner às 13hs. Nem às 18hs. Não por odio, nem por enjoo. Mas porque já foi muito. Quem diria, não é?
Eu acho que o ódio-por-overdose é proporcional ao amor que você sentiu enquanto era só dose, e aí é que a vida te ferra.
Apesar de adorar o Horrible, confesso que estou sendo homeopática nas audições; faço passar o dia cantarolando e não escutar, pra não perigar deixar chegar o ódio.
Isso de sentimentos comedidos.
Sei não se funciona, mas não custa tentar, né?
Acho que vale a pena, porque ele faz dedinhos mágicos e eu quase consigo imitar, apesar dos olhares repressores dos outros motoristas.
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