Acho que no vol. I da minha saga blogueira foi que eu comentei aquela música do Gil. Ou foi aqui mesmo, uma vida atrás. Mas ouvi e lembrei de um professor de ética que tive na escola, ele chamava Orestes e tinha um filho Dimitri, o que eu achava um barato. E Orestes é figurinha até conhecida na cidade, acho que dos últimos comunistas vivos e praticantes, andava com uma pochete cheia de papel - ou talvez eu esteja só confundindo as pochetes.
Acho que eu e meu Karma éramos as únicas pessoas a gostar mesmo do cara e das aulas dele, porque ele ensinava, ora bolas, ética, coisa que, convenhamos, não é conhecida por seduzir muitos adolescentes. Lembro até hoje dele dizer, tão simplesmente, a diferença entre ética e moral, dizer a história da justiça; que se você vê três pessoas num cabo-de-guerra, duas de um lado e uma do outro, aí você não pode dizer "não, eles que estão jogando, não vou me intrometer" e achar que isso é justiça, porque não é, se você quiser ser justo vai ter que entrar no jogo do lado da pessoa que tá sozinha, pra equilibrar o sistema todo. Sei lá, mas lembro.
E acho que me lembro também dele falar da música do Gil, e que a Bahia já deu régua e compasso. Que é a minha parte favorita da música, mas o resto todinho dela faz lembrar o Rio, o que é mais ou menos o objetivo dela. E quando eu ouvi, ali, que ele continua lindo, deu uma saudaaade, de um momento em que nem tudo estava bem, mas era possível ser feliz. Saudade do hotel mais ou menos na Glória, com o bar na esquina que tinha uma casquinha de bacalhau divina, saudade do pastel de camarão e passear em Santa Tereza e assistir uma peça de surpresa e me esbugalhar pra não chorar. De gostos e imagens e esperanças e não sei o quê que foi tão gostoso e dá vontade de voltar.
Nos últimos dois anos eu viajei mais do que em toda a minha vida. Viagens longas e curtas, boas e nem tanto, de ônibus, trem e avião, do qual chega quase perdi o medo. E apesar de eu sempre sentir como uma dor nesse ausentar-me, desconfio que gosto cada vez mais. E o problema - ou a graça - é que vício é vício e a gente acaba sempre querendo mais.
Porque eu já estou com vontade da estrada e quase que vivo sonhando com a próxima, ainda tão distante, mas já tão querida.
Eu sou assim, de ver despertar em mim amores repentinos e profundos e quase espontâneos, sem motivação aparente ou imediata, que me seguem por muito tempo, talvez até a desilusão, mas seguem fazendo estrago até lá.
Só o tempo, né, pra dizer? O que será? Onde e quando? O resto é esperar e escrever.