Se um dia eu morresse, e chegasse num céu, e tivesse um Deus, e ele me perguntasse se eu queria voltar praqui, e se eu pudesse escolher uma coisa pra não ter...
Mentira.
A verdade é que eu gosto do meu apego. Ele me ferra de vez em sempre, não me deixa ver um tantão de coisas, me faz sofrer, porque me impede de aceitar perder as coisas de que gosto. O que é ainda mais grave, porque eu conheço tão tão poucas coisas, porque só gosto daquilo que, pra mim, é, ou parece ser, velho.
Quem mesmo disse que o historiador é um conservador por natureza?
Toda vez que eu gosto de uma música, é porque eu já ouvi antes. Tenho essa aversão pelo novo que eu não sei dizer exatamente de onde vem. Aí isso me faz ler o mesmo livro milhões de vezes. Normalmente gosto da primeira roupa que experimentei, nem por ser mais bonita, mas eu quase sinto como se a estivesse traindo se escolhesse, digamos, a segunda. Por "roupa", por favor, entendam o que quiserem.
Hoje eu andei de ônibus. Tava mega cansada, então capotei na primeira viagem. Na segunda não podia, que era na cidade, tinha que ficar acordada pra fazer baldeação, não quebrar o pescoço com os balangos do carro (fato que eu estava super carregada, com duas bolsas, aí estava eu de pé, uma hora, que ia descer, e o motorista ficou doidão e começou a fazer um ziguezague e uma das minhas bolsas também balangou enlouquecida e meio que nocauteou uma moça que tava sentada... Pedi desculpas, e tal, mas nem fiquei com vergonha, porque sou assim meio sem, como expliquei há pouco) e vim ouvindo meu mp3 velhico [foi mal, mas peço licença pra usar os diminutivos com -ico, que tô achando mais poético - com o perdão da rima forçada], que tem uma partezinha rachada, mas aí eu penso: o diabo funciona direitinho, porque eu trocaria por um modelo novo? É tipos o cara do filme que não joga a toalha fora porque acha que ela tem sentimentos. Só que ecologicamente correto. Não que a toalha não seja, mas enfim.
Aí, além de ele, o mp3, ser velho, as músicas que tem lá lá estão há séculos. Toda vez que eu resolvo trocar a lista, vou lendo os nomezinhos e fico pensando: "ah, mas pode ser que qualquer hora eu queira ouvir essa... vai, são só 3 mb, deixa ae!". De vez em nunca faço uma mudança "radical"; agora estou numas de ter mais discos inteiros que músicas avulsas, mas tem tipo 3 artistas nos meus parcos 2 gb de memória. Vai, olhei direito e tá mais pra 5. Mas eu ouço e ouço a mesma música vezes sem conta, por isso meu last era uma vergonha, porque eu só ouço sempre a mesma música.
A última paixão - ou... antepenúltima? - eu descobri a história esses tempos. Ou inferi, mas enfim: quando a minha irmã estava... não, ao contrário: eu tava lá ouvindo a música, mostrei pra irmã, ela disse que já conhecia de anos, e eu lembrei: quando minha irmã estava grávida, ela tinha um carro com rádio de fita k7, e eu andando uma vez no carro dela coloquei uma fita pra ouvir, e tinha uma música que eu curti muito, que falava não sei o que da ilha, e eu lembro de ouvir várias vezes (voltando, mesmo, e esperando cinco minutos e a música estando ainda no meio e todo aquele drama que minha sobrinha, por exemplo, jamais vai conhecer), e tentar lembrar da letra pra depois procurar. Aí não procurei, o carro dela foi roubado - com fitas e rádio junto, obviamente - e nunca mais lembrei da música até que... deu pra sacar, né?
Então eu tenho de ouvir uma coisa muitas vezes sem prestar muita atenção, pra daí um dia ouvir, ser familiar, e eu apaixonar. E, claro, como não podia deixar de ser, apegar.
Aí, como também tenho apego aos mesmos temas e objetos (como boa egocêntrica, normalmente eles se relacionam, oras, a mim!), fiquei pensando nisso de talvez querer ser diferente, me perguntei "poxa, não ia ser legal ouvir o diabo da música uma vez, depois ouvir outra, e assim por diante? Se eu nascesse de novo, ia querer ser assim..."
Só que não. Eu gosto de ser assim; talvez por estar... apegada a... mim, uai.
Mas fora a história da serpente que come o próprio rabo (é isso, será?), eu de fato acho bacana isso de mergulhar profundamente num amor qualquer. Considerando minha megalomania, acho legal a idéia do não-descartável. Sem nem querer enganar ninguém, que eu tenho meu lado mega consumista, mas é só um lado, não sou eu toda. A parte que importa mais, ou que gasta (com o perdão do trocadilho) a maior parte do tempo é essa, que não deixa pra lá. Que ouve, ouve, ouve, aí para de fazer sentido, aí fala sobre isso, aí ouve e gosta de novo.
Hoje ouvi meu mp3 no ônibus, aleatoriamente, só repeti uma ou duas músicas - e a viagem é longa -, cheguei em casa e liguei o dito aparelhico no computador, pra continuar ouvindo, e praticamente a primeira música que tocou, que eu já conhecia, está até agora no repeat.
Hoje, talvez por ocupar um lugar não usual, vim pra casa olhando pra cidade, vi umas casinhas muito bonitinhas nas quais nunca tinha reparado e quase gostei dela.
Mas tenho, ainda, algum apego ao desgostar.
Hoje comecei a ver um filme nada a ver e fiquei com vontade de mudar o cabelo.
Porque essa é a casa da contradição e toda regra tem lá suas exceções.