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terça-feira, 23 de junho de 2009

O auditório da Universidade estava cheio. Da velha, acho, não da nova. E acho que foi assim que começou, mas também pode ter começado de outro jeito.
O auditório cheio e alguém, que talvez possa ser chamado mestre de cerimônias, chama as três pessoas importantes - isso, importantes, para quê, não sei dizer - para entrar. Um eu não lembro quem era, mas era importante. O outro, o Gabriel García Márquez, que ali era Gabo, apesar de nunca tê-lo sido para mim. A última, eu. Nós avançávamos em meio à multidão e chegávamos lá embaixo; a porta era no fundo do auditório, e a mesa, com microfone e tudo, lá na frente e embaixo. Eu ficava encabulada de dizer a ele que era uma fã. "Fã", tão não significa nada, né? Lembro de pensar isso desde a época que gostava do... Netinho? Aquele mesmo, da... Mila?
Encabulada, não digo nada, só fico ali, sendo fã, esperando que talvez ele perceba um pouco.
Não sei o que fazíamos ali, só éramos importantes, os três chamados à frente, e discutia-se alguma coisa, importante, que eu já não sei mais o que era.
Depois, Gabo se tornava uma mulher; vale dizer que ambos, homem e mulher, eram muito baixos. Ele mulher era ainda ele, e nós íamos fazer compras, como naquele mercado de Londres, em Camden Town, mas era tipo no Nordeste, aí tinha muitas barraquinhas, e fazíamos compras, não sei de que nem para quem.
Aí eu estava no Rio, acho que com meu pai, também num mercado, talvez o mesmo, e procurávamos a casa da minha prima Denise, que mora na Inglaterra, e tinha mais gente junto, acho que duas moças burras, e chegávamos ao prédio e apertávamos o botão do interfone, e eu estava no apartamento que a prima mantinha no Rio, para passar férias, mas ela tinha saído. Minha mãe e irmã também estavam lá, e conversávamos com alguém quando a Denise chegou e eu dei um grito, desses bem estridentes, e saí correndo para abraçá-la. Ela não retribuiu minha alegria em vê-la mas, pensando bem, ela foi mesmo desproporcional. E eu sentia um certo ciúme de vê-la conversando com a minha irmã, apesar de elas não se conhecerem.
Aí eu estava num hotel, tinha chegado com um grupo grande de pessoas cujas faces e nomes eu não lembro, e elas me entretinham, não sei como, talvez brigássemos, ou eu as quisesse conhecer, ou íamos ao restaurante, ou bebíamos vinho, fazíamos essa coisa que eu digo apreciar, que é conhecer pessoas. Jargão velho riscado "pessoas me interessam mais do que lugares". Passávamos a noite no hotel, ele era grande e térreo, e eu entretida, ainda na manhã seguinte, até um momento em que eu olhava pela janela e me dava conta de onde estava.
O lugar mais lindo do mundo. E eu esqueci. O hotel ficava como no alto de um canyon, ou aquele lugar que visitamos em Pernambuco, Vale da Lua?, que tem forma de "v", e as encostas escarpadas, muito, e ficava em um dos lados do "v", de frente pro outro, e se podia ver uma parte da encosta, toda coberta de vegetação e muito azul das cachoeiras que desciam por ali. Todo o alto da encosta era tomado pela água, que descia verticalmente, e muito azul. Havia mais coisas ao redor, mas eu não lembro. Pensava, ainda comigo, que tinha que lembrar, que ia esquecer mas não podia, que tinha que lembrar desse lugar porque era importante. Como se eu soubesse que em algumas horas, ou minutos, tudo mesmo se perderia nas brumas do despertar. Mas "eu não posso esquecer", de alguma maneira, funcionou, mesmo que minimamente, porque eu lembro que não deveria esquecer e lembro da água.
E eu queria chegar na borda do precipício e olhar para baixo, mas tive medo.
Aí, no salão do hotel, enquanto eu ainda pensava que tinha que lembrar, havia muitas pessoas reunidas, e uma professora mais velha, com uma filha assim da minha idade, pouco mais, que tivera o coração partido. E a mãe, excêntrica, usava uns colares enormes e coloridos, de contas, e tinha que dar um para a filha para ela se sentir melhor, mas ele devia ser refeito, menor, então ela arrebentava o fio e me dava as contas para prender de novo, só que eu não achava o fio apropriado, e todo mundo me dizia que o fio que eu tinha não prestava, e davam sugestões do que fazer, um fio costurado num pano, elástico que, afinal, não era elástico, e o tempo passava e eu ficava nervosa, porque não conseguia refazer o colar, e então chegava minha amiga Cristina que ia se casar naquele dia e, ainda assim, estava ali para ajudar, e eu a abraçava e dizia que estava muito feliz por ela e ela era muito boa pra estar ali, naquela hora.
Isso da gente ficar mesmo feliz pelos outros é um bálsamo maravilhoso, né? Eu sempre me esqueço.
Gabo, Denise, não posso esquecer, Crica. Sim, acho que foram esses os companheiros principais, importantes, embora houvesse muito mais que não ficou.
Eu ganhei, ano passado, um caderno pra anotar sonhos. Anotei um, e nunca mais.
Só pra contar e não esquecer.