Chega a seca, depois de tempestade, granizo, neblina e garoa.
Chega o silêncio, depois de gritos, murmúrios, sussurros, depois do canto do vento e dos aviões e dos choros, depois do ônibus e do trem que me visita quase diariamente, dos passarinhos que cantam à janela, do liquidificador e dos latinos e da sinfonia de uivos que nunca mais será.
Chega o fim, oito anos depois, sangue - pouco - mas suor e lágrimas rechearam esse período que não foi apenas ruim, apesar de tê-lo sido muitas vezes. Foi também de descobertas e encontros e desencontros e tantas perdas, dias e noites cheios, sono e insônia, risadas e madrugadas, mas sempre alguma coisa.
Tudo aquilo que vem antes do fim. Antes do fim, tudo.
Oito anos atrás, houve silêncio, mas curto e cheio de ideias e planos; oito anos atrás a vida era qualquer coisa de diferente do que é agora.
Agora, quando talvez eu devesse saber melhor o que ela é, e quando sei melhor muita coisa, me vejo à beira desse precipício, ou diante dessa encruzilhada que não faço idéia para onde vai me levar.
E sinto cá dentro alguma coisa que não é alegria nem tristeza e, se tivesse muito de ser alguma coisa, seria mais próximo da primeira que da segunda; mas sinto cá um quê de samba, uma tristeza que balança.
O que eu chamo de melancolia, que não é só triste nem mórbida, como diz o Aurélio, ou então é uma tristeza cheia que tem de ser outra coisa, porque o que é tristeza se não vazio?
Sinto aqui um mar me chegando aos olhos e não sei bem explicar de onde ele vem.
Vem da tempestade e da garoa e dos gritos e murmúrios, vem da saudade e da gratidão, vem do que nunca foi e do que virá, vem da arte que dá cor à vida e da vida que anda sem arte.
Alguma coisa falta, mas não há buraco.
Tudo parece pleno e translúcido.
Busco alegrías, mas só me agrada o silencio. Ouço o silencio infinitamente e há magia no corpo que se contrai e só. Que sucumbe, desiste por menos de um segundo, depois segue em frente, mas naquele segundo o peso do mundo foi demais.
Tão pouco, o corpo que se contrai e nele o mundo e todos os mistérios e todas as perguntas e respostas.
Não sei se o que sinto é esperança ou apenas a certeza da existência de uma beleza insuportável, que não basta nem nada resolve, que talvez apenas eu veja e que a poucos fascina.
Talvez sinta somente uma noite de luar ou o céu estrelado que nunca vi, talvez sinta somente os trovões estremecendo céu e terra, talvez sinta a mim, sem saber quem sou.
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