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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

On drugs

São poucos os momentos dessa vida em que eu me arrependo, ainda que levemente, de não estar nas redes do momento, tipo facebook e twitter. Normalmente estou plenamente convencida de que não sinto a menor vontade de estar, todo esse lance de fazer propaganda da própria vida e depois ficar perseguindo pessoas aleatoriamente me cansa sobremaneira. E, sei lá, quem se importa? Para me expressar virtualmente já tenho essa birosca, que já não vende muito bem; quem nessa porra de mundo tá minimamente interessado no que eu possa escrever no twitter? Nem falta de auto-estima, consciência mesmo da minha mediocridade na mais pura acepção da palavra. Galera às vezes alega que o povo se expõe demais, mas eu acho que tem trocentos zenzilhões de pessoas se expondo tanto ou quanto, se um louco encanar com você pela internet, sei lá, você foi lá e deu azar. O mesmo pode acontecer na rua, a qualquer momento, porque o fato é que nessa vida não existe segurança alguma e vamos todos morrer mesmo.
E morrendo ou vivendo, não quero fazer vitrine, não sinto o menor desejo de participar da ilusão de uma proximidade que não existe, brincar de ser casual, quero é vontade e intenção e esforço. Às vezes é difícil, eu sei, mas ?, essa porcaria aqui não foi feita pra facilitar a vida de ninguém. E de repente há um pote de ouro no fim do arco-íris, ou uma luz no fim do túnel, ou só mesmo uma cachoeira gelada esperando no fim da estrada, mas você só vai apreciar se gastar a energia para chegar lá.
Eu tava com um manifesto anti-facebook todinho na cabeça, acho que desde o ano passado, mas fui esperando e ele se perdeu. Tenho noção de quanto eu perco com minha recusa, mas estou mesmo disposta a pagar pra ver.
Só que tem momentos, como esse, em que posso estar simplesmente cansada e surtada e no pico do chocolate para me manter acordada, mas bem agora eu penso que tenho algo a compartilhar com o mundo que é importante, enquanto simultaneamente me dou conta que ninguém no mundo vai rir como eu ri agora, porque a verdade final e absoluta é que não importa.
Eu tenho, porém, esse espaço e venho relatar que estou eu aqui, mergulhada para variar no século XIX, tentando desvendar a letra de um puto de um escrivão, quando o cara vai registrar a qualificação de um escravo que matou a mulher, e começa a dizer que o cara é "natural de Portugal, digo, do Rio Grande do Norte". Meu, essa pessoa tá muito on drugs. Aí, ok, não tem a menor graça, mas eu começo a imaginar a cena, o pessoal numa salinha meio suja, de parede caiada se tanto, um bando de gente e a porra do Juiz, e o curador, e o diabo do escravo que matou a mulher começando a contar como e por quê e de onde tirou essa idéia genial, e o doido do escrivão no mundo da lua, pensando na morte da bezerra, completamente surtado e fora da caixinha, por que da onde uma pessoa confunde Portugal e Rio Grande do Norte? Pra um escravo?
Tanta coisa nessa vida que a gente vive e morre sem saber e sonha ter a chance de um dia encontrar um deus inexistente e perguntar, ou encontrar a pessoa em questão e perguntar, tantos "por que você fez isso comigo?", "por que você não fez isso comigo?", as dúvidas mais angustiantes e desesperadas, talvez mesmo cruciais, exceto que nada é, mas juro mesmo que se eu tivesse a chance de fazer uma pergunta, provavelmente amanhã me arrependeria, mas essa noite seria: "amigo, onde diabos você tava com a cabeça?"

PS: Gente, o rapaz tava bem não. Duas linhas depois, ele pergunta "qual sua profissão? respondeu chamar-se, digo, respondeu ser trabalhador de roça"!

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