"Nora lembrou-se do hotel em Belgrano, da primeira noite com Lúcio, porém não era lembrar, mas esquecer um pouco menos".
Cortázar, "Os prêmios".
Ali, nas primeiras páginas. Não sei ainda como me sinto a respeito, talvez seja um novo "Jogo da Amarelinha", de que eu não sabia se gostava ou não mas ainda assim ficou. Mas gosto demais dessa idéia. Lembrar-se, porém não ser lembrar, mas esquecer um pouco menos.
Como pode a gente só esquecer um pouco menos?
Minha fama de esquecida já se espalha rapidamente por aqui, conversas que eu tive que não me marcaram e eu apaguei, coisas que eu disse que não me marcaram que já apaguei, mas o mais assustador é uma sensação de estranhamento comigo, como se eu estivesse esquecendo quem sou.
Então ando pelas ruas, sinto a primavera que se aproxima, e penso "lembra quem você é!".
O único problema é que a gente nunca sabe direito quem é. Talvez desconfie vagamente de quem foi, ou quem poderia ser, mas saber e no presente é outra história.
A gente tenta, mas vem a vida e de repente estamos no redemoinho, sem tempo para pensar e saber, o corpo se movimentando algo automaticamente, os olhos focados em frente sem observar o que nos rodeia, nós mesmos olhando para dentro sem ver. E vem a vida, vem e passa, e as horas e os dias e vivê-la consome tanto, desgasta tanto, que parece não sobrar tempo para saber quem somos.
Não gosto muito disso, acho, mas sigamos em frente e tentando, esperando desvendar os sinais deixados pelos caminhos e chegar, algum dia, a uma conclusão.
"Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo... seria uma rima, não seria uma solução." Drummond?
Haverá em algum lugar solução?
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