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sábado, 22 de setembro de 2012

De graça

Tenho tido pouca, ainda que alguma, vontade de escrever. Acho que nunca fiquei tanto tempo sem ao menos largar uma migalha.
Mas tanta coisa (não) acontecendo, tanto que tenho que escrever, porque mesmo tenho, e a vontade não tem chegado nem ali. Eita ano esquisito, esse vinte-doze. Parece que a primeira metade foi outro e ele na verdade recém começou e eu meio torço pra acabar logo, mas sei que não vai acabar antes de eu trabalhar e trabalhar e trabalhar e eu quero só ficar de bobeira.
Ainda que hoje, pela primeira vez em sei lá quanto tempo, chegou mesmo a fazer frio, nesse sul tão sem regra. E é tão bom, no frio, ficar de bobeira.
No calor também. O problema é que é sempre bom e eu perdi, como perco sempre, o prazer no trabalho. Perdi literalmente, de ter de encontrar em algum lugar que esqueci. Tão difícil isso de achar uma constância na vida, tão instável eu sou, uns dias, poucos, gostando do que faço, outros tantos sonhando gostar. Sempre sempre sonho com bibliotecas, e eu sentada numa mesa e trabalhando concentrada, e o dia acabando e eu com aquela sensação de dever cumprido, e podendo apreciar a noite. Tão raras vezes isso corresponde à realidade, prova mesmo da impossibilidade do sonho. E da minha teimosia, porque sei que não vou fazer. Sei que vou ficar sentada na minha cama, com o computador queimando minhas pernas, e livros espalhados por tudo que é lugar, tentando enlouquecidamente escrever e terminar e achando tudo uma merda, para depois dormir e sonhar com bibliotecas.
E, no caminho, tantas dívidas que vou deixando. Prometo, porém, que as pagarei. Disse que ia responder e vou.
O fato é que eu cheguei aqui e tanta coisa... achei que tinha perdido alguma coisa e de repente ela volta, algo inesperadamente e no meio de uma avalanche, tudo desabando e, ainda, uma alegria de reencontro, enquanto o tempo corre, voa e eu não sei como dar conta de tudo e ainda viver. Tava pensando, ainda agora, ao imaginar as pessoas se encontrando, tomando uma cerveja no fim da tarde, pegando um cinema, que acho que vou ter que deixar isso pra depois, que agora não dá. Mais algumas semanas de hibernação, talvez, com sorte, para depois nova primavera e depois hibernar e assim por diante, até chegar o desespero absoluto da falta de perspectivas e do mundo adulto, mas tudo bem, respira fundo, ainda estamos longe, um dia de cada vez e assim por diante.
Enquanto isso, ouço uma cantilena da sobrinha, que encheu uma jarra de água, colocou numa bolsa uns copos, a bolsa no ombro e saiu andando pela casa, cantarolando baixinho "água... água de graça... quem quer água... água de graça" e eu não consigo alcançar o que é isso que a gente perde com os anos, por que a gente perde com os anos?, de no nada achar satisfação. Andava ela, para cima para baixo, eu bebendo litros de água até doer minha barriga, enquanto ela seguia e não parecia nela faltar nada.
Sei não o que aqui parece andar perdido, mesmo sem rumo, como se eu tivesse perdido um pouco o norte. Será que perdi no norte?

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