Não sei exatamente o motivo, mas os momentos na minha vida em que sou mais feliz são aqueles não relacionados a mim.
Quando nos acontece uma coisa bacana, quando conseguimos algo que quisemos muito, é tão esperado que a gente fique, e seja, naqueles instantes, feliz, que acho que a obrigação diminui um pouco o brilho da minha alegria.
Eu, ao menos, não aprendi ainda a desejar sem peso algum, sem ansiedade na espera e uma inevitável frustração na materialização.
Mas aí tem esses momentos, os outros, não meus, que me completam de uma maneira um tanto inusitada, mas não menos profunda. Acontece, às vezes, ao ouvir uma música de que gosto, ou ver uma pessoa que acho particularmente bonita. Acontece, vez em quando, quando gosto muito de alguém e fico ali, só gostando, sabendo que nunca vou poder dizer quanto gosto, nem o outro vai poder saber, por essa impossibilidade crucial das relações, mas ainda assim ficar ali, só gostando cheio.
Aconteceu, comigo, nessa cidade do caralho, que eu conhecia de amores e sonhos; que cheguei a ver, antes, e que antes confirmou o carinho, mas pela qual só me apaixonei agora.
Talvez eu transfira a ela tanto do afeto que tenho pelos amigos de lá, mas de qualquer modo eu venho dizer que Recife é foda.
Perdoem-me os sensíveis, mas eu sou assim: quando gosto muito, xingo.
Nem por gostar tanto da folia, que sou mais pacata que isso, mas que coisa linda de se ver as ruas absolutamente tomadas e, talvez contando com uma sorte tremenda, não ver nem sentir ali nada além da alegria da festa. As pessoas curtindo e se curtindo, respeitando um tanto, bem grande, os espaços alheios, se divertindo por si, não sei nem explicar.
Que coisa maluca não é a democracia, né? Não sei o quanto desse olhar não é o do turista que vê de fora, mas, vejam bem, mesmo sendo uma ilusão de estrangeiro, que ilusão para se ter. E construir. E ao menos no carnaval, a cidade a constrói bem.
Tive cá meus momentos de grande emoção, dos quais não sei dizer. Não sei contar das incontáveis crianças fantasiadas, nem do homem, já talvez de meia idade, bastante moreno, com um bigode - fruto da minha imaginação ou da dele -, vestido de preto, bermuda e tênis, sentado com um grupo de amigos ou familiares ou, até, desconhecidos, que se levanta e começa a dançar, ali, miudinho, repetindo os passos mas sem nunca perder o compasso, despretensiosamente, porque lhe agrada.
Repito: talvez ilusão, mas são poucas as paisagens que dão margem a ilusões deste tipo.
E eu ainda vou ter que viajar muito, conhecer muito e bem outros povos, para um dia descartar minha impressão e paixão por esse, que também é meu, que permite que isso aconteça. Não sei mesmo onde mais isso é possível.
Como me completam cenas como essa de homem dançando.
Elas me fazem feliz de ser, como ele, daqui e gente.
2 comentários:
Eita, deixou a recifense aqui com os olhos cheios d'água. Recife é foda e do caralho mesmo. Você usou as palavras certas, hahaha! Queria muito ter compartilhado contigo essa experiência. Mas deixe estar que ano que vem estamos por lá. E a casa vai estar esperando por você!
Beijinhos minha querida!
Mila, eu também queria, mas pensei tanto tanto em vocês que foi quase como se estivéssemos juntos.
De resto, eu de cá só tenho a agradecer.
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