Eu parei de dizer que sou hipocondríaca porque minha tia queridissíssima de fato tinha um problema com remédios. Nem sei se era hipocondria, mas eu diagnostiquei assim. Sim, eu diagnóstico, sigamos adiante.
O problema maior dela, eu acho, é que lá há zilhões de anos ela começou a tomar calmante e nunca mais parou. Minha tia queridissíssima era uma pessoa adorável e adorada, até agora é difícil falar sobre ela sem meus olhos encherem de lágrimas, porque ela fez tanto parte da minha vida; ela era quem cuidava de mim e da minha irmã quando minha mãe viajava, e depois passou anos me contando da vez que, estando sós, ela tentou me mandar tomar banho e eu até tirei a roupa, mas não queria entrar no chuveiro e saí fugindo pelada e me escondi debaixo da cama, e ela ria contando "e eu olhava debaixo da cama aquela bundona branca e morria de rir" e morríamos de rir juntas.
Aí quando eu brincava de casinha naquele canteirinho que havia na frente da casa dela, antes de ela reformar, eu escavava a terra pra fazer bolinhos e sei lá mais o quê e de repente achava uma minhoca e, escandalosa e criança que era, saía correndo e gritando; ela ia lá, com o maior ar de simpatia me socorrer, pegava a minhoca entre os dedos e corria atrás de mim e morria de rir e morríamos de rir juntas.
Pois que, afora isso, ela tinha lá uma dessas dores de viver dessas algo insuportáveis, principalmente quando não havia por perto uma bunda branca e uma minhoca e um morrer de rir juntas. Como solução, ou remédio, ou paliativo, ela tomava lá seus calmantes e, quando já bastante doente, sentia muitas dores, não soubemos nem saberemos nunca se reais ou imaginárias. Tudo, então, lhe doía.
Eu, observando-a, pensei: ok, vou parar com essa história de que sou hipocondríaca.
Porque, apesar de sê-lo um pouco (até fiz uma vez um desses testes pela internet que confirmou meu diagnóstico), sou apenas um pouco e até que bastante sob controle. Nos últimos anos, por exemplo, para com uma certa mania que tinha com remédios, nada demais, apenas aquele analgésico ao primeiro sinal de dor de cabeça, ou anti-inflamatório ao primeiro sinal de dor de garganta. Hoje, espero, tento identificar a causa da dor, avaliar se é mais ou menos sério e então decido o que fazer. Nunca na vida, por exemplo, tomei antibiótico sem indicação médica.
Mas eis que, devido ao estresse paralisante por que passei no último ano, a pressão de ter que escrever e não saber o quê, ou saber o quê e não saber como (percebo que, afinal, escrever é também minha profissão!), menos a tia queridíssima, mais uma temporada fora, percebi nos últimos meses que ando cometendo uns lapsos que achei preocupante. Do tipo de pedir para me passarem um objeto laranja qualquer e no fim o objeto em questão ser roxo. Dizer "filme" em vez de "filho". Trocar palavras por outras pertencentes ao mesmo universo da que eu queria dizer, esquecer o nome das coisas e assim por diante. Galera geral dizendo que é normal, do estresse e tudo o mais, mas eu ainda tenho aqui meu leve grau de preocupação exacerbada e fui ver um médico de confiança da nossa família.
Que disse, em resumo, que eu não tenho nada não, que andei nervosa e com muita coisa pra fazer e vivendo em lugares diferentes e pra eu manter uma agenda e fazer um diário. E o diário, mocinha, escrito à mão, mesmo que sua letra seja horrorosa e você tenha preguiça de desenhar letras, porque isso de escrever no computador não é a mesma coisa.
Aí o médico que mandou, né, vamos fazer.
Ainda não fiz.
Isso de diário, sei lá, escrever o que aconteceu, o que era pra acontecer, o que deu certo e errado, confesso que me cansa. Prefiro lançar aqui algumas palavras enigmáticas, contar meia história, fazer referências que só eu entendo, preocupar-me aqui e ali, algo raramente, com estilo e forma e beleza.
Não narrar, que acho que não é essa a minha onda. Nem inventar, que ficção é outra praia que não frequento. Lançar, como gosto de pensar, sementes ao ar e imaginar que, quem sabe, algum dia, elas caiam em terreno fértil e germinem.
Mas agora eu tenho de fazer um diário? Ter, tenho, como me é perceptível ao relancear os olhos pelas linhas acima e perceber as palavras que intentei dizer e ficaram pelo caminho, mas fazer?
Nessas coincidências da vida, estou agora lendo viajantes. Europeus, quase todos (ou todos?), que vieram para o Brasil no século XIX e, como comentava uma amiga minha, apesar de os caras serem mega preconceituosos e racistas e o escambau, que puta loucura os caras, tipo um príncipe alemão, saírem de suas casinhas e se meterem num barco e se enfiarem pelas estradas enlameadas desse Brasil afora. É muito espírito aventureiro, desses que em tempo de avião, internet e smartphone é difícil sequer imaginar.
O ponto é que os caras contaram, aí em livros de trezentas ou quinhentas ou mil páginas, tudo que viram. Às vezes de maneira muito enfadonha, eu pelo menos estou pouco me fudendo pras formigas que eles encontraram pelo caminho, muito menos pras baratas e ratos, mas ainda assim, têm ali um registro (por vezes em demasia) pormenorizado de tudo que viram e fizeram.
Eu tenho o quê? Não sou, claro, um viajante do século XIX, mas andei já umas duas léguas desse mundo e tenho o quê? Imagens desbotadas de lugares que já não sei se visitei ou por onde passei correndo. Impressões tênues que se marcam em mim e formam quem eu sou, sim, mas que não consigo reproduzir nem explicar minimamente para ninguém de fora, porque nunca elaborei.
E elaborar é escrever. Nem é preciso publicar, nem é preciso ninguém ler, mas imagino que saber que há em algum lugar, num caderno concreto, algumas dessas memórias guardadas, imagino que dê muito alento.
Planejo, então, começar a anotar. Quem sabe adquiro o hábito e quando alguém me perguntar se estive em tal ou tal cidade, eu possa responder "sim" ou "não", no lugar de um vago "não sei... talvez..."
Mas por que mesmo estou eu falando disso? Ah, sim, porque a internet me levou a um desses blogs "querido diário", em que a última anotação era que a pessoa comprou todos os livros do Harry Potter e queria ler antes de o último filme ser lançado e ela estar no meio do terceiro e não saber se vai conseguir. Nós não sabemos, porque ela não disse, mas, né? E daí? Será que um diário consiste nessas bobagens? Vou ter que anotar que ainda não terminei de ler Anna Kariênina porque absolutamente não deu tempo!?
Ai, ainda se minha letra fosse menos feia.
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