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quarta-feira, 20 de março de 2013

Heróis

Estava eu aqui, relativamente bem apesar de tudo que deveria estar fazendo e não estou.
Em meio a planos e risadas, até que confortável com a minha vida e a minha pessoa e as que me cercam.
De repente, comecei a ouvir essa música e algo meio que despertou.
Podemos nós ser heróis por um dia?
E quem somos nós, cara-pálida?
Sinto aqui essa curiosidade insuportável de saber quem eu sou e continuo me escapando. Reflito, sim, ouço, leio, assisto, vez em quando quase sempre recorro a recursos dos quais duvido, como o céu ou as cartas, suplicando-lhes que me ajudem a responder.
Juntando pedacinhos do quebra-cabeça, pode me acontecer de saber. Ou melhor, de desconfiar. Fazer assim uma vaga idéia. É só que ela se desfaz tão rapidamente, evapora como as bolhas de sabão que saem da boca do palhaço.
Todo o nosso saber tem mesmo de ser assim tão efêmero.
Com alguma ansiedade, procurei uma resposta nessa bendita-maldita rede, em um programa que sorteia uma carta e diz que tem a ver comigo. Às vezes calha de ter, porque tudo que é humano e tudo o mais. Hoje não calhou.
No silêncio que sobreveio, uma manchete tenta responder se é mais fácil ou mais difícil fazer amizades depois dos trinta.
E foda-se, né? Se é mais fácil, mais difícil, afinal o que é amizade e tudo aquilo.
Mas li ali e pronto, despertou aqui outra coisa. Um quê de saudade de amizades adolescentes que eu já tive, de intensidade tremenda e proximidade total, beirando a promiscuidade, em que um se mistura no outro e aí é que a gente não sabe mesmo quem é.
Em meio a planos e risadas, é impossível não perceber que me relaciono com as pessoas de outra maneira. Depois dos trinta, ou dos vinte-e-nove, ou dos vinte-e-sete. Sei lá depois do quê, depois de alguma coisa que se partiu, ou alguma coisa que se construiu, que tornou mais importante saber quem eu sou e quem o outro é. Somos, ainda, nós, mas talvez menos perdíveis.
Fiquei tão feliz, esses tempos, porque encontrei um amigo. Não era um amigo novo, era até bem velho, mas entre as cagadas dele e as minhas a gente se perdeu e do meio do turbilhão se encontrou. Foi bom, lembrar porque ficamos amigos pra começo de conversa. Tantos filmes vistos juntos, numa sala de cinema de cheiro estranho. Tantas noites passadas entre palavras e músicas. Lembro da gente ouvindo "Wish you were here" e ele falando de como esse disco era fodástico. Ele me enchia demais o saco e eu mandava ele se danar e agora parece que crescemos. Ele costumava me chamar de Mrs. Right, porque eu tinha essa mania de achar que estava sempre certa.
Ainda tenho, admito, mas ela se manifesta, hoje, mais raramente. Eu agora penso que consigo vislumbrar o outro, ainda que não o alcance, mas tenho noção de que existe ali uma pessoa e não um servo criado para me servir e afirmar. Acredito que pode ser possível aceitar o diferente.
E, mais que tudo, duvido. Principalmente de mim, mas também de todo o resto.Não sei se eu mudei, não sei se hoje posso ver, não sei bem quem eu sou nessa noite que se aprofunda.
Não sei se há ajuda possível e nem, se houver, se serviria de alguma coisa. Pergunto à carta, mas ela não pode responder. E se respondesse, eu duvidaria das certezas que ela ousasse proferir.
Hoje eu só sei da voz do Bowie, "bumba meu bowie", e de um pedaço aqui que tá faltando.
Um pedaço que eu sei qual é mas não entendo, não sei por que saiu, nem para onde foi, nem ouso esperar que um dia retorne. Estilo, aqui, falta.
Eu sobro.

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