O Mário não cai.
Não foi ele quem me contou, eu já há muito tempo não o vejo e, ainda quando via, nunca estabelecemos uma conversa em que fizesse sentido me contar. Na verdade, duvido que ele saiba quem eu sou, se alguém algum dia porventura mencionar meu nome. Eu sei quem ele é porque todo mundo sabe. E uma vez ou duas parei no arquivo que não era o meu para falar com ele. Quando minhas visitas se tornaram mais assíduas, ele já não estava.
Quem me contou que o Mário não cai foi um conhecido das antigas, antiquíssimas, tantas que mal me recordo. Eu mal lembrar, aliás, é fato corriqueiro como todos sabemos bem sabido. Ainda há pouco tomei outra chapuletada (sim, é com "p", diz o Aurélio aqui ao lado, mas eu sempre sempre disse com "b") ao conversar com uma amiga, essa sim de tempos longínquos, e ela me contou uma história que vivemos juntas, ainda adolescentes, quando em uma praia na Bahia sentimos não sei que comoção e choramos juntas e sozinhas por razões que não sabíamos explicar. Para ela, a lembrança clara como cristal, ou talvez como fotografia algo apagadinha mas em que tudo ainda é perfeitamente reconhecível. Para mim, silêncio. Não foi comigo que aconteceu, apesar de ser absolutamente plausível que aconteça, porque eu transbordo sempre pelos olhos. Com as coisas mais banais.
E ainda assim, aparentemente foi comigo que aconteceu. Eu me pergunto como pode alguém viver de memória perdê-las tão completamente e perder-se. Esse eu adolescente, na praia da Bahia chorando, se foi sem deixar rastros, a não ser aquilo que somos, tão irrastreável quanto qualquer outro com quem já me deparei nessas andanças.
Então a amiga longínqua e o conhecido antiquíssimo me contam do que eu fui e do que nós fomos e eu só posso acreditar ou duvidar.
Então o conhecido me conta que o Mário não cai, porque o Mário não faz nada banal e cair é coisa de quem não presta atenção no que faz ou faz coisas sem importância como, quem sabe, perambular à toa por aí, com os pés aqui e a cabeça nas estrelas.
O Mário não faz nada banal e eu rio, primeiro porque só a idéia tem sua imensa graça, segundo porque eu faço muito pouco além do banal. Inclusive rir do Mário que não cai.
Além de graça, a idéia tem um quê de instigante, assim como essas coisas que podem despertar admiração, ou pelo menos assombro, mas pensar nisso, numa vida com propósito, as ações com propósito e as palavras com propósito e saber, imagine saber o que tem propósito e o que não tem. Não viver mergulhado em dúvidas constantes e incertezas paralisantes, no nada que te puxa para todos os lados e não leva a lugar algum. Ir apenas aonde é necessário, há aí uma atração, na falta de desperdício. Sim, em suma é isso: não desperdiçar. Tempo, energia, pessoas e o coração batendo enlouquecidamente, lágrimas e sorrisos, tudo a seu lugar e a seu tempo.
Se tudo que vemos do outro é o espelho invertido do que vemos de nós, fica evidente como o sol dos trópicos que o Mário não cai e eu me estabaco. Estabanada ando, em desequilíbrio constante, caio sem motivo e com, busco apoio e o levo comigo para o chão. Levanto-me apenas por um minuto, para acreditar que vai durar, até perceber que não. Eu sei tudo por acaso, tudo por atraso, mera distração.
Ainda bem que Lenine também.
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