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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Medo do medo que dá

Não sei mesmo explicar o que tem acontecido comigo. Ou o que aconteceu comigo.
Eu sempre fui uma pessoa muito da cagona, dessas master, mesmo; de andar em casa acendendo todas as luzes, de ao dormir ver uma roupa pendurada em algum lugar e achar que tem uma forma estranha e ter de acender a luz para checar e ter certeza de que é apenas uma roupa pendurada com uma forma estranha.
Quando era adolescente, adorava livros policiais, principalmente Agatha Christie, o que, convenhamos, não tem nada de assustador. Mas eu fiquei sem dormir, depois de ler o Assassinato no Expresso do Oriente, simplesmente porque minha imaginação hiperativa confundia as bolas e me dominava: em algum momento do livro, alguém diz ter visto no corredor do trem uma pessoa vestindo um robe com um dragão bordado nas costas. Não sei por que, eu começava a pensar que era um homem, e não uma mulher (porque obviamente só mulheres usam robes com dragão bordado nas costas e todas essas essas merdas de leis de gênero e talz). E pensar em um homem com o tal robe me assustava pacas. Aí eu não conseguia dormir, imaginando que tinha alguém parado na porta do meu quarto com um dragão nas costas e uma faca na mão.
Meu primo, que partilhava da minha fixação pelo gênero, não se conformava. Até eu não me conformava, mas isso não mudava nada.
Eu até sempre assisti um ou outro filme de terror, porque até gosto um tanto, apesar de não ser exatamente minha onda. Engraçado que aqueles terrores mais possíveis, de violências tangíveis e cotidianas, nunca me impressionavam tanto; o que me pegava era o sobrenatural.
Talvez por todas as histórias que correm na família, ou pela casa que foi da minha avó, depois da minha tia, depois de não sei quem; uma casa antiga com chão rangente de madeira e o banheiro localizado nos fundos e a gente, criança, ouvindo o relógio badalar e tendo de fazer xixi e atravessar a casa toda e sem poder acender todas as luzes, porque deveríamos estar dormindo e os adultos são tão incompreensivos e não têm dó da gente.
Quando eu era criança, tinha essa necessidade de dormir toda pra dentro da cama, sem deixar a ponta do pé ou a mão cair pra fora do colchão, porque eu tinha essa pira de que podia haver alguém debaixo da cama com uma faca ou sei lá e que ia passar a bendita nas bordas da cama, como que aparando arestas ou sei lá e que nessa minha mãozinha literalmente ia pro saco. Eu me pergunto agora se isso é normal ou se é atestado de insanidade, mas sei lá, era uma neura que eu tinha. Confesso que até hoje não me sinto muito confortável com isso de dormir vazando da cama, e também prefiro me cobrir, nem que seja com um lençol, no verão, porque o tecido sobre mim me dá uma sensação de segurança.
Então que eu sempre tive medo.
E sempre tive medo de ter medo.
Meu problema mesmo é a hora de dormir, aqueles segundos limítrofes em que a imaginação galopa a rédea solta e todos os monstros vêm à tona.
Por isso, eu nunca assisti ao Iluminado; todo mundo falando como é fodástico e eu me perguntando como diabos poderia eventualmente voltar a dormir, se um dia porventura visse.
Não sei o que aconteceu comigo, porque calhou de eu ver, gostar e dormir perfeitamente bem. Ou perfeitamente mal, como ando dormindo ultimamente, mas nada a ver com o Jack Nicholson. Não sonhei, nem imaginei nada entrando no quarto.
Será que ao escrever essas imprudentes palavras estou me condenando a ser assolada pelo mesmo pavor que afirmo não sentir? Sempre pode ser, em se tratando de mim.
Aí umas semanas atrás um amigo me chamou pra ver um filme que achei bem bostoso, chamado A morte do demônio. Tipos que levei talvez um susto e achei uma fala engraçadinha, de resto fiquei mesmo pensando "nossa, que merda de filme e que dinheiro mal gasto" e me ligando na tosquice da coisa toda.
Depois, dormi, como de hábito.
Será, afinal, que superei essa de ter medo, principalmente de bobagens?
Ressalto que quando eu li algum dos livros do George R. R. Martin senti um certo cagaço d'os outros, bem daquele jeito: ia pegando no sono lendo, aí ia apagando o abajur, quando de repente imaginava que eles estavam se aproximando e reacendia a luz, porque, né?, os outros não curtem fogo, portanto, calor, portanto minha lâmpada de tungstênio muito me protegeria das investidas das suas espadas de gelo. Prova de que até dormindo podemos ser salvos pelo raciocínio lógico. Ou quase lógico, porque lógico mesmo seria pensar que os outros não existem, mas aí já seria querer muito.
Mas isso faz uns bons dois anos, ou quase.
E daí?, pensamos todos, ao chegar até aqui.
E daí nada, acho; e daí que eu posso, talvez, ver filmes de terror e tudo seguir como dantes.
E daí que isso é novo e o novo é sempre melhor.

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