Nem sei quanto tempo depois. Três meses? Três vidas? Três mortes.
Tenho sentido aqui esse silêncio que anseia por ser preenchido e eu hesito tanto em preenchê-lo e penso em tantas coisas. Penso em "refrão de bolero", nem sei por quê. Um erro assim tão vulgar nos persegue a noite inteira?
Penso em "eternas ondas". Não sei por quê.
Penso em "bicho de sete cabeças", porque a melodia é qualquer coisa de sobrenatural. E também a letra.
Mas eu começo o caminho pelo mesmo Timoneiro com que me despedi. Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Porque eu gosto da rima.
E do mar.
Afora isso, tenho aqui sentido uma necessidade de solidão e silêncio que são difíceis de encontrar.
Mas sim, eu vinha dizer que a Ana anda esquecida, inacabada, abandonada e cheia de pó, até não sei quando. Para sempre, talvez, ou até a próxima volta. A Ana que tanto me impressionou, há tantos e tantos anos com aquela loucura incontrolável que eu identificava e me identificava. Às vezes eu fico pensando que sou a pessoa mais vazia do mundo, no sentido simplório de que posso ser preenchida por uma série sem sentido de coisas e idéias. Como se eu fosse a folha em branco e tudo que me dissessem pudesse ser potencialmente escrito em mim. Ou qualquer outra dessas metáforas, da tábula e sei lá o quê, do quadro e as cores. Eu me pergunto se a Ana me fez tanto quanto qualquer das outras besteiras que já ouvi e que ficaram. Muitas ficaram e para ser bem sincera elas me incomodam. Como se elas reduzissem o espaço em que posso simplesmente ser. Eu.
Abandonada a Ana, tenho lido tanto e tanta coisa que me pergunto o que sobra depois do ponto final. Volto à minha antiga e maior idéia fixa: eu não sou Diadorim. Nunca fui, nem Diadorim me disse do que eu precisava ser e fazer, nem nunca escreveu na minha folha.
A fascinação de ler qualquer coisa que não sou eu - considerando que posso ser tudo.
Mas essa história é antiga, como eu me sinto ao recontá-la. E requentá-la.
Eu ontem ouvia a chuva cair. Depois de imensa ausência e muito de leve e me fazendo pensar: porque será que o barulho de chuva leve sobre uma palmeira parece tanto fogo? O estalar. Louca que sou, ouço mais atentamente para tentar diferenciar e vou percebendo como gosto de ambos. Posso ter assistido muito Capitão Planeta quando era criança - e ele escreveu em mim - mas o fato é que gosto. Dos elementos à toda, dos sons e cores - desde que eu permaneça sã e salva.
De repente chegam aqui Belchior e Milton e Djavan, que tem esse som de "dj" (nem) tão estranho alhures.
Clube da Esquina.
Um dia eu tava ouvindo uma rádio que só pega em determinados aparelhos. É de uma cidadezinha e muito engraçada. Uma vez, ouvimos o locutor brigar com a produtora ao vivo, xingando todo mundo e saindo no meio do programa. E ela toca de tudo, mas nada de muito pop. Não popular, pop, mesmo, dessas coisas que a galera anda ouvindo. Que nicaraguenses conhecem, ou que tocam em lojas de bagagem em Leiden e as pessoas cantam andando de bicicleta à noite. Coisas como Francisco Alves e, sei lá, esses dias tocaram um pedaço de Shine On num programa de músicas instrumentais. Tudo bem que Shine On não é instrumental: eles cortaram. Na hora do almoço, toca música clássica; aos fins de semana toca música italiana (Italianíssima o nome do programa) e eles explicam como funcionam sinfonias e instrumentos e coisas assim.
Um dia, eu ouvia da mesa, não lembro fazendo o que eu estava e começou essa música incrível que eu nunca tinha ouvido. Exceto que eu nunca gosto de uma música quando a ouço pela primeira vez (quem terá escrito isso na minha folha?). Mas era incrível. Falava alguma coisa de uma rua. Eu pensei: eu não vou esquecer dessa letra para depois procurar e reouvir e achar incrível de novo. Não me esqueci. Por cinco minutos. Foi-se para sempre, porque vá lá você procurar "música" e "rua" no google.
Há umas semanas, eu estava numa festa em que as pessoas tocavam violão. Fazia sabe-se lá quanto tempo que eu não ia a uma festa em que as pessoas tocam violão. As pessoas também comiam bancon defumado na geléia de damasco, mas isso realmente não vem ao caso. Só que era delicioso.
Um dos caras que tocavam violão, sentado à minha frente, começa a cantar essa música incrível que eu nunca ouvi antes na vida. Exceto que a acho incrível e eu nunca gosto de uma música quando a ouço pela primeira vez. De repente, do nada, me lembro de sentar na cozinha e ouvir essa outra música incrível que vem me chegado à memória. Da rua. Era a mesma, linda, do Lô Borges.
Um desses (infelizmente tão raros) momentos da vida. Um momento "carolina" (porque eu sou brasileira e traduzo). Inexplicável, como acho que é tudo que importa. Quem tá aí pro fato de eu reconhecer uma porra de uma música? "So what?", como diria o professor escroto. Importa apenas e somente a mim, a minha carolina.
Reconhecimento final da própria desimportância.
Tanto a dizer, para me dar a conhecer.
Tão pouco a ouvir.
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