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domingo, 23 de maio de 2010

O Passado

Comprei mesmo pela capa.
E pelo desconto, talvez mais pelo desconto.
Mas a capa me deixa feliz em olhá-la; papel meio pardo, com algumas figuras coladas, tipo ingressos e cartões postais e carimbos de alfândega, toda a contracapa de foto de passaporte e ingresso para um jogo do Boca.
Comprei praí há 6 meses.
Comecei, então, a ler e parei; isso, talvez, de não ser o tempo.
Lembro muito de amigos, principalmente durante a faculdade, que diziam que não estavam lendo literatura, só historiografia, porque não dava tempo. Esses dias, um deles me disse que tinha preguiça.
Eu pasmo e fico boquiaberta, porque se tem coisa que me tira do eixo é não estar lendo algumas dessas histórias viajadas e tão reais. Um professor dizia que ali eles contam verdades sobre coisas que não aconteceram, enquanto nós de cá contamos mentiras sobre as que ocorreram.
Deve ter alguma razão, o professor. É o mesmo que falava pra gente não cair nessa conversa de confiar em cabelo branco porque canalha também envelhece.
Mas comecei, o passado, e já quase acabei, enquanto devia, talvez, dedicar o tempo mais ao trabalho. Só que às vezes a cabeça da gente não aguenta e precisa de um respiro, ou ao menos a minha cabeça é assim.
Bem ou mal, preciso sempre de um respiro.
Mas aí vou lá e encaro um passado desses e fico meio zonza, ou não sei. O bicho tem a força de um liquidificador, ou sei lá como chamam aqueles negócios que tem no mar que te puxam pra baixo.
Ando muito esquecida das palavras, não por influência de Rímini.
Redemoinho? Diz o Aurélio que bem pode ser rodamoinho.
Mas aí ele te puxa, ou me puxa, e eu me deixo levar, que é o que se há de fazer e fico tonta, sem fôlego, não sei direito o que pensar. Eu quando mergulho não consigo pensar e depois fico reclamando que não entendo o que vi.
Tem horas que gosto do cara, outras detesto. Fico me perguntando se ele é covarde ou se é só humano e se as duas coisas são interdependentes e se algum dia alguém vai saber me responder ou se essa vai ser mais uma das zilhões de perguntas cujas respostas eu vou ter de me acostumar a viver sem.
Pior ainda é questionar se essa é a pergunta certa, mas quem sabe, não?
E a capa é tão bonita.
O recheio acho que também, mas é mais doído, o que não sei se aumenta ou diminui a beleza.
Nessas horas que eu me perdôo pelos guilty pleasures que insisto em ter. Um ideal de mim se contentaria com as verdades sobre mentiras ou as mentiras sobre verdades, mas eu ainda não cheguei lá nem lá me vejo num futuro próximo. Preciso, então, para desintoxicar, de mentiras óbvias sobre mentiras absurdas, que isso de verdade cansa demais.
Tinha até pensado em fazer aqui uma mini-enquete, me autorizando a cometer um desses crimes - pelo qual ainda não consegui decidir se vale arriscar minha dignidade, porque ela não sairia inteira e era até capaz de não sair de jeito nenhum - mas tem muito sentido não, né?
A gente fica querendo ter a aprovação das pessoas, mas que pessoas, cara-pálida? Egocentrismo por aqui sobe e desce e, bem agora, ele tá em baixa.
Então decido que, se vou chafurdar, que seja por minha conta e risco e ninguém tem nada a ver com isso.
Mas não é pra agora, de todo jeito, e quando for pra ser, será em segredo.
E ainda hoje eu sigo em frente com o passado, que assim vamos nós.

PS: Eita, e li agora um spoiler dizendo que ele rende homenagem ao Proust. Sei nada de Proust, sinto só um eco de amor, talvez ilusório, mas o que não é ilusório nessa vida? A gente nunca sabe direito, ou eu não sei, do que sentiu, porque já foi, então a saída mesmo é acreditar que aquilo que um dia dissemos que era era mesmo e continua sendo, até prova em contrário. Achei o tempo redescoberto de uma genialidade suprema, pra mim até então impossível, justamente porque desconhecida e inimaginável. E depois silêncio, esse silêncio ensurdecedor, ensurdecedor e mudo, silencio tanto que as palavras fogem, e a saída é procurá-las no calar soturno das letras.

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