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terça-feira, 18 de maio de 2010

Noite e menino

Tava hoje de bobeira e... - rá, pegadinha!
Bobeira tem mais não nesse corpo. O ócio agora é todo criativo, como provam as duas ou três páginas que acabei de escrever. Podem estar uma merda ou uma pérola, obviamente, mas elas nasceram porque eu pensei nelas. E elas vão é aguardar a sentença, enquanto eu continuo.
Mas sim, não de bobeira, mas dei um tempo - comer, socializar, etc. - e peguei mamãe assistindo a um show do MPB4 e falando como os adora e tudo mais. Eu acho legal e meio que paro por aí, apesar de a música da lua, deles, ter sido a trilha e mote de uma as lembranças mais fofuras da sobrinha rodando e abrindo os braços na ponta dos pés pra fazê-la cheia.
Aí eles cantaram essa daqui, do Chico:

Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar

Seu padre, toca o sino
Que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha
Que pode morrer
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar

Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar

Meu pinho, toca forte
Que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida
Nem fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar

Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir

Luar, espere um pouco
Que é pro meu samba poder chegar
Eu sei que o violão
Está fraco, está rouco
Mas a minha voz
Não cansou de chamar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar


E, né? As pessoas podem dizer que ele canta mal e não sabe escrever, mas vá, compor tem discussão? A felicidade que se for de samba há de querer ficar?
Desculpae, mas eu hipnotizo. E acho que a graça da voz dele tá no desafinado, imensamente preferível àquelas ondinhas velosas nojentas.
Afora isso, eu perdi, no processo, a capacidade de conhecer palavras. Nunca fui de lembrar nada, e até algumas referências específicas de livros que li trocentas vezes evaporarem da minha mente eu acho aceitável, mas palavras?! Elas se foram e eu fico meia hora parada na frente da tela, contemplando o infinito, tentando puxá-las pela rabiola, mas nem sempre elas voltam. Sinônimos, afinal, foram inventados pra alguma coisa, né? O que ferra neles é o "quase" que o dicionário lhes atribui. E, de falar nele, Aurélio agora é meu melhor amigo. Gosto mais dele que do outro, se pá porque era o nome da minha avó.
Bora lá, então, que a noite é criança e o samba é menino.

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