Passava essa tarde no Canal Brasil um show do João Bosco e eu, de longe, ouvia a voz dele e do Djavan falando de garrafas lançadas ao mar.
Para mim, essa música cheira a Calabouço e noite, a algo que parece outono.
Cheira a lembrança, afinal, e da boa.
Tenho me sentido algo estranha nos últimos tempos, meio que como se eu não soubesse qual é o meu lugar. Não que eu ache que a gente em algum momento saiba exatamente a que lugar pertence, mas pode acontecer de às vezes saber melhor.
E talvez o que tenha me acontecido é que eu achei que sabia, depois sabia que mudaria e mudou, mas não da maneira esperada - como nunca é. Ainda se tivéssemos o consolo de ser como a gente espera.
E depois nos acostumamos tanto ao espaço que ocupamos que, vez em quando, quando o palco se transforma ao nosso redor e sobem panos com cenários pintados em cores diferentes e a música que toca é já outra, quando o de fora muda e nós permanecemos nós, como permanecemos indefinida e indiscutivelmente, parece tão fácil nos perdermos nas cores e sons outros. Como se tudo isso que houvesse do lado de lá do mundo, como se o que estivesse para além das fronteiras desenhadas pelos nossos olhos e ouvidos e bocas e peles, nos desconcentrasse e nos impedisse de conhecer, por alguns instantes, o que está do lado de cá. É que, para saber, não basta estar, é preciso, como diria aquele outro, estar atento.
E forte.
Pois eu, nessa noite de quarta que se transforma em quinta-feira, se possível, sei menos ainda da vida do que jamais soube.
"Meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado e a voz vibra e a mão escreve mar. Bendita lâmina grave que fere a parede e traz as febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais".
Li em algum lugar, e achei tão bonito, que "corpo é apenas uma maneira disfarçada de dizer alma".
Isso aqui que sou eu, isso que eu sou, sabendo sem saber, desconhecido enorme, anseia por água.
De onde veio a vida, não é o que dizem?
Que enche e transborda.
Que mata a sede dos olhos, e mata a sede da pele, e mata a sede da boca, e mata a sede da alma.
Um comentário:
Passei por aqui e encontrei beleza :)
bjos.
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