Não sei, sabe, Lô?
Acho tanta graça nessa forma que encontrei de falar como se eu soubesse alguma coisa, qualquer coisa, sobre a vida. Mais graça tem porque, enquanto falo como se soubesse, eu mesma me desmascaro, como se uma eu-flutuante olhasse para baixo e dissesse "você é uma idiota!", entende?
Talvez seja uma definição de burrice isso de, reconhecendo a própria ignorância, a pessoa insistir em opinar. Reconheço essa evidência com alguma humildade, suficiente apenas para admiti-la, não para me calar.
O x da questão, para mim, é que ainda não descobri que vida-de-verdade é essa que posso ter. Talvez eu seja apenas criança, talvez minhas cortinas não tenham ainda sido abertas e meu show esteja atrasado, mas talvez, ou provavelmente, a vida seja só isso mesmo que há por aí, que eu conheço hoje e sempre. Inventei de acreditar que, pra mim, de-verdade não é lá muito diferente, para além da aparência, de de-mentira.
Vivo nesse mundo de ficção que às vezes são outros que fazem, noutras sou eu mesma que crio.
Como se soubesse, afirmo que o mais importante nessa nossa brincadeira é fazer de-verdade o que quer que se esteja fazendo, percebe? Pode ser assistir a um filme bobo, pode ser ter uma conversa maravilhosa, pode ser um sabor, pode ser uma lágrima, com sorte alguma risada, com muita sorte um segundo em que tudo faz sentido, em que parecemos estar onde deveríamos estar, pode ser uma idiotice, mas se for de-verdade, pra mim, vale a pena.
Não me arrependo da emoção que me desperta ouvir uma história; mesmo quando ela não tem nada a ver comigo pode acontecer de eu também estar ali e naqueles minutos ou horas descobrir alguma coisa sobre mim, ou pensar em algo que nunca tinha me tocado, ou dar só uma gargalhada meio culpada por uma panaquice qualquer. Ou posso imaginar, enlevada, o que poderia ser se a gente não fosse tão humano e ferrado. Sabe, daquela beleza impossível? Ou daquela outra, inventada, que é a única maneira de nos fazer ver a que existe? É um céu velho onde as estrelas recomeçam - então sou completa e por nada de-verdade.
E a gente precisa, ou eu que sou criança e não conheço a verdade preciso de me apagar, talvez com excessiva constância. Preciso porque talvez não consiga ainda ser o tempo todo, talvez precise ainda me acostumar comigo e com meu espaço e aprender a ocupá-lo, para poder então desprezar uma fuga que me seja oferecida. O problema, o maior problema, quem sabe o único, é que fugindo ainda sou eu e vou sempre ser. Né? Portanto a fuga é irremediável ilusão.
Mas me inquieta mais isso, da vida-de-verdade. Você pode ter usado em outro sentido, mas o próprio conceito, mesmo, como se houvesse ali fora te esperando alguma grande aventura, como se fosse possível alcançá-la e vivê-la e depois relatá-la e depois ainda começar uma nova aventura e tudo de novo.
Eu acredito, talvez muito ingenuamente, que a aventura é só isso mesmo, está aqui e sou eu e é você, não importa o que estejamos fazendo.
A gente sempre vive-de-verdade, porque não há como viver-de-mentira se a verdade é que ninguém conhece a verdade e nos é impossível escapar de nós mesmos.
A dificuldade, eu intuo, é termos a coragem de responder "presente" ao invés de nos escondermos debaixo da mesa quando somos chamados.
Um comentário:
eu sei que quando me chamam, não estou debaixo da mesa, estou sentada ou de preferência deitada, escondida dentro de alguma representação que não sou eu, para que não me encontrem. O caso é que quando preciso mesmo sair, percebo que um tempão já foi investido nestas sensações, que são mesmo válidas, mas que são tão efêmeras quanto o apagar da luz - se bem que nossa vida também é né...
Eu concordo com você. A vida-de-verdade acontece nestes momentos também. Talvez a grande questão seja mesmo a fuga. Não importa para onde, pois é mesmo fuga, e eu continuo eu com estes problemas.
Não sei se há uma grande aventura. Sei que há tempo perdido, e isso me assusta, mesmo que as sensações sejam válidas - e mesmo que o costume e a vontade estejam tão enraizados que as vezes o susto parece pequeno e barato.
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