Tava lá a sobrinha brincando no cantinho dela - porque ela tem, de fato, um cantinho, com mesa e cadeira e estante cheia de livro e brinquedo e badulaques mil. Cabelo preso por ela mesma, aquela postura de dar inveja, ficava mudando as coisas de lugar, de uma mesa para a outra e eu olhando, tentando entender a brincadeira.
Uma que tudo pra ela é brincar; se acabou de chegar da escola tem que brincar antes de comer ou tomar banho ou fazer a lição; se ainda não foi para a escola, tem de brincar antes de ir, porque vai demorar a voltar; se acabou de acordar, tem de brincar porque talvez depois saia e assim por diante.
Pergunto então do que ela brinca e ela responde:
- De escolinha. Quer brincar?
E eu numas de obviedade digo que não.
Eu que gostava tanto de brincar de escolinha - como imagino que toda criança.
Todo o lance da imaginação infantil, né, de reproduzir o mundo que elas conhecem e ver ali, na sala da casa uma sala de aula, e nas bonecas alunos, e nela a professora e tudo o mais. A gente já dificilmente consegue ver as coisas assim; depois de um tempo por aqui cansamos de reproduzir o que conhecemos, acho, e começamos mais a imaginar o que gostaríamos de conhecer. Não sei se faz sentido, mas foi o que eu pensei.
Além do mais, carrego comigo - talvez impressionantes - vinte e sete anos de escolinha, portanto não vejo mais tanta graça no processo.
Mas a sobrinha lá vê e muita. É um estado de espírito também, isso de ver graça, porque ela vê em tudo, da comida ao banho ao passeio à hora de dormir. De ouvir uma música e sair dançando, de ver um papel e sair pintando, a vida é uma festa.
Diz mamãe que nem eu nem a irmã éramos assim, mas não sei. Éramos, com certeza, mais assim do que poderíamos ser hoje e é difícil a gente não lamentar, nem que seja um pouco, a seriedade que toma conta da vida e nos impede cotidianamente de festejar.
Mas em algum momento o adulto tem que interferir, de um jeito ou de outro, e eu, como não fiz minha lição-de-casa, sou obrigada a me pôr de castigo.
Sem jantar...
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