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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Medo

Acordei de sonhos intranquilos, mas não li o Kafka nem ouvi o Otto.
Sonhei que estava na minha casa, essa mesma em que vivo.
Sonhei que estava de camisola, essa mesma que visto.
Sonhei que era noite, como é, e que fazia um friozinho bão, como faz.
Sonhei que não conseguia dormir com medo de que entrasse alguém aqui. Não sei se por isso acordei, mas de fato acordei.
Sentia algum frio então busquei mais cobertas. Fui ao banheiro, pensei em comer, pensei em beber, pensei em dizer.
É interessante porque, vivendo numa cidade relativamente grande e perigosa, eu tenho sim algum medo mas não muito. Ou não tanto medo - não em comparação ao comum das pessoas, mas à histeria e neurose cujo potencial sinto em mim com demasiada frequência.
Numa noite dessas, chegando em casa à minha rua quase deserta, levei um susto. Ninguém passa pela minha rua, ela não leva a lugar nenhum, então normalmente entro nela sozinha. Por acaso, enquanto eu esperava o portão abrir, um carro virou a esquina e parou atrás de mim. Em milésimos de segundos imaginei assaltantes saindo dele e me abordando e resolvi ir embora. O lance todo de os caras não poderem entrar na casa e etc. Arranquei e desci a rua e, antes de seu curto fim, percebi que o carro que me seguia andou um pouco e parou. Pensei "putz, os caras vão me esperar, porque viram que eu tava entrando e saí com medo; sabem que vou dar uma volta no quarteirão e voltar". Neurose, né? Mas pelo menos eu não tava chorando nem ligando pra polícia. Fiquei pensando que a gente tem esse reflexo de sair, mas o meu ao menos para por aí. Sem plano. E depois, pra onde ir? Enquanto andava por ruas próximas, procurava pelo meu cérebro sem senso de localização alguma delegacia perto, cujo caminho me fosse possível desvendar.
Procurava em vão, como procuramos uma palavra que está na ponta da língua e não vem. Como se soubéssemos alguma coisa, mas ela estivesse encoberta por um véu que não podemos desfazer ou dissipar. Tanta coisa dá essa sensação. Senti há pouco com uma música; ouvi na rádio e soube antes de saber as palavras que era da Adriana Calcanhoto e que eu conhecia muito e precisei de vários segundos para reconhecer completamente, nome e voz, e é engraçado porque não é um descobrir ou lembrar, é mesmo como se soubesse instantaneamente mas nublado. Saber nublado, parece bem.
Mas ia lá eu, nublada sem saber o caminho, quando percebi que o mesmo carro que me assustara estava atrás de mim. Dei-lhe uma pequena fechada num farol e resolvi virar uma rua, em direção à casa ou qualquer outro lugar, pensando que se ele me seguisse, corria para a polícia.
Não seguiu. Nem acho que era um assaltante desencorajado, mesmo uma pessoa perdida que calhou de estar num lugar algo ermo e me assustar à toa.
Depois disso, num carro desconhecido, saí por horas, também na noite deserta, e deixei uma janela aberta. Não um pouco aberta, mesmo escancarada. Percebi sei lá como quando voltei, olhei assustada para o lado, bati a mão no vidro inexistente e pensei "poxa, não é que esse mundo não é o terror que a gente acredita ser?". Não se isso é ser otimista ou maluca, mas é que nem tudo que poderia dar errado na vida efetivamente dá e isso pra mim é motivo de consolo.
Tenho, porém, medo, mas também não tenho. Não me lembro de um passado recente em que perdi o sono por temor, pelo menos não de algo concreto.
De não terminar um trabalho, perder o prazo, ser escrachada, reduzida a migalhas, metaforicamente, lá isso acontece.
Mas a repressão funciona melhor com pequenezas mundanas como assalto e violência, ou porque não há mesmo como evitá-las ou porque elas são de fato menos aterrorizantes que o esmigalhamento. Já aconteceu, inclusive, de as enfrentando eu chamar o sono, como fuga bendita que ajuda a noite a passar.
Não acordei em pânico, nem sequer acredito que acordei por medo. Sonhei com medo e acordei, como se as duas coisas não se relacionassem. Será absurdo pensar isso? É que às vezes a gente tem mesmo uns pesadelos que nos despertam em desespero, toda aquela história de uma saída para algo terrível, mesmo insuportável, então nosso corpo sabiamente desperta.
Tenho medo e não tenho, mas acho que o que tenho mesmo é essa insônia torta, que me impede de dormir cedo e aproveitar o escuro, que gosta de aproveitar a noite e perder o começo do dia, que me acorda sempre e me faz sempre estar acordada às meia-noites.
De repente há algo em mim que ama a meia noite e me obriga a apreciá-la, mesmo quando não sei de mim nem das horas.
De repente há algo que sabe.

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