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quarta-feira, 21 de maio de 2008

A busca

Eu sou fã do Saia Justa e órfã da Fernanda Young. Tudo bem, o tempo passa, as fases passam, mas meia hora dela Irritando para mim não é suficiente. Eu adorava o programa.
No entanto, eu venho falar da outra fase do programa. Tema recorrente: eu sinto alguma irritação - o que não é nada pessoal nem surpreendente, já que eu sou, de fato, uma pessoa muito facilmente irritável - quando as pessoas chegam e dizem: "ah, eu queria ler um livro, o que eu leio?". Não qualquer pessoa, mas aquelas que, aparentemente, querem botar uma banca de "oh-como-eu-gosto-de-ler" e não têm nenhuma técnica. Porque os leitores ávidos têm de ter uma técnica para chegar ao que lêem. Imagino que tem gente que lê críticas, revistas especializadas, vêem o programa do Abujamra, vão à livraria e percorrem as prateleiras, em busca de um título - por que não uma capa? - interessante, ou recorrem a um autor favorito. Se você quer ler muito, tem que tirar idéias do que ler de algum lugar, e isso faz parte do sistema todo, descobrir o que te interessa, em vez de comprar interesses alheios. Claro que existe muito pedir conselhos, eu também os peço, mas tem todo o resto, o seguir e o ser seduzido por uma obra qualquer.
Eu sempre me lembro, há muitos e muitos anos, eu sem saber o que ler perguntava à minha mãe e ela sempre sempre me indicava O amor nos tempos do cólera. Eu comecei umas cinco vezes e nunca passava das primeiras três páginas, que me pareciam trinta. Aí, um dia, eu vim à estante em busca de um novo amor e encontrei outro García Márquez, Cem anos de solidão, comecei a ler e li e me arrependi, porque todo mundo sabe que uma das maiores invejas da minha vida é de quem nunca leu esse livro e vai ainda poder lê-lo pela primeira vez e eu já não posso. Depois disso, fui com maior boa vontade ao outro, sempre indicado pela minha mãe, e percebi que as trinta páginas eram apenas três e o livro é, realmente, maravilhoso.
Outro favorito, Orgulho e preconceito, assistindo aquele filme com a Meg Ryan e o Tom Hanks, Mensagem pra você, meio remake de Sintonia de Amor, ela dizia que era o favorito dela, eu anotei num papelzinho e encontrei num sebo e já li algumas vezes. Guerra e paz eu peguei fazendo um trabalho, primeiro ano de faculdade, o Dosse dizia que era um clássico; Crime e castigo, xerox da biblioteca, pseudo-amigo comentando que gostava muito, e assim vai. Essas descobertas já são parte da aventura.
Em busca do tempo perdido, eu me lembro de ouvir pela primeira vez em um Saia Justa, a Mônica, creio eu, comentando que era uma obra gigantesca que todo mundo comenta mas que poucos leram, de verdade. Armada a armadilha.
Não, eu não me enquadro nas pessoas que leram a busca. Mas quase. Talvez o suficiente pra ter uma boa idéia do que o Proust quis dizer, apesar de ter um bloqueio tremendo em entender as coisas que leio. Prefiro ler, apenas, ir, me deixar levar. Mas esses dias eu ouvi alguém dizer que o Proust escreveu Em busca do tempo perdido porque ele não conseguia perdoar o mundo por sei lá o quê. Eu fiz a maior cara de interrogação que minha testa inexpressiva me permite. Não tive nem um pouco dessa sensação ao ler, até ao contrário. Acho que o foco é tão ele, interno, pra se poder dizer que o mundo fez alguma coisa.
Eu me lembrava, dia desses, de quando ele fala, acho que já sobre a Albertine, e isso do tempo que passa e no futuro não vamos mais querer o que queremos agora, porque seremos outras pessoas, e como essa certeza dói muito agora, porque ainda somos nós agora, não nós depois. Tão, tão verdade, isso, e eu fiquei pensando nisso dele falar quase exclusivamente do amor pela Albertine, e depois esse amor como que perde totalmente a importância pra ele, o personagem - porque também me irritam as pessoas que dizem que o personagem é o Proust, porque mesmo sendo não é -, e se torna um amor, passado, porque ele é ele depois. Eu gosto tanto desse livro, tanto, o das raparigas.
Eu não sei quando acontece isso da gente decifrar o tempo. Eu hoje ouvi a Nana cantando a resposta. Sabe passar e eu não sei. Adormece paixões e eu desperto.
Eu tive uma ótima semana, a melhor que eu consigo lembrar em muito, muito tempo, não sei se anestesia, analgésico, tempo, mas não doeu e foi tão bom. A resposta à minha pergunta era sim. Liberdade.
Mas sempre tem um mas, um senão, um então, de repente. De novo chega o aperto, eu sinto as mãos que envolvem alguma coisa dentro do meu peito. Não sei de onde tiram isso, que a gente não sente as coisas com o coração, se é ele que dói. Dói dentro, quando eu respiro, enquanto espero, dói.
Eu hoje ouvi Deep Purple, ontem Marisa Monte, vontade absurda de Los Hermanos e Pink Floyd. Good bye blue sky. Isso sou eu coming back to life, sendo eu depois e me deixando para trás? Mas eu de trás não quero que eu vá e me seguro, me amarro pelo peito e aperto, pra não me deixar escapar.
Mas o tempo sabe passar e adormecer e eu não sei. Ele passa e me leva e eu não quero mais correntes. A great day for freedom.
Sim, minha frase favorita: não sei. Vou ouvir a música e dormir em silêncio, mas ainda carrego comigo a dor. Menor, talvez, mas ainda demora um pouco antes dela também sumir. Em silêncio.
Eu vou partir e passar.
Adeus.

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