Pode ser só o fato de eu ter mesmo que trabalhar, ou que eu meio que esqueci de tomar banho, ou melhor, de não ter tomado ainda e a casa não estar em condições de ouvir um chuveiro barulhento fervente na alta madrugada. Isso da gente querer dizer que não tomou banho sem querer dizer que é porco.
Eu sempre digo que tenho dda auto-diagnosticada, como sempre disse que tenho hipocondria auto-diagnosticada, ou era até o dia em que eu fiz um teste na internet e deu, pra simplificar, positivo. Tem alguma coisa aqui, nesse corpo que eu sou, que me faz literalmente desviar a atenção no meio de cada frase que escrevo, pra fazer qualquer coisa: ver televisão, cobrir o pé, procurar algum vídeo na internet, checar e-mails pela enésima vez. Sim, eu sei que ninguém me escreveu na madrugada - notem que a madrugada está sendo importante nesse momento -, o programa da TV eu já vi, o frio chegou e não há nada que se possa fazer a respeito. Mas sim, eu precisava de algumas informações que talvez estivessem perdidas no mar de pastas do computador, vou procurar, não as encontro mas encontro outras, totalmente inúteis, e escolho agora, esse exato momento, para fazer uma limpa.
Aí aparecem coisas do arco da velha, eus que já foram, outros que vieram pela metade, outros que nunca estiveram aqui e um monte de coisa sem sentido, tipo um formulário de inscrição de uma amiga num curso. Todas elas devem estar aqui por uma razão, que fez sentido na época, mesmo que agora eu não alcance.
Mas aí tem aquelas outras, eus e outros, que deviam ter um nome, que é quase como uma máquina do tempo. Tantas vontades de dizer que nunca saíram daqui, barradas talvez pela prevalecência de um mínimo de bom senso; tantos dizeres que chegaram sem sentido.
E no meio de tudo isso, um eu que já foi. E, apesar de ter ido, ainda está aqui e acorda, como se soasse um daqueles apitos de cachorro (morcego?!) que a gente não consegue ouvir, mas que eles ouvem e ficam todos alvoroçados. E esse eu que desperta de repente toma conta do outro que tomou seu lugar, move o mouse e os dedos e resolve escrever num blog que nunca foi dele.
E ali há tantas coisas que eu, ou ele, alguém vai apagando, com mais ou menos pesar, e outras que vão sendo salvas, talvez aleatoriamente, porque fazem parte daquila mesma matéria do que vai sendo apagado.
E muito do que não vai, fica para eu um dia lembrar. Porque foi importante, algum dia, e talvez, no futuro, eu sinta alguma propensão a voltar e, talvez, entender um pouco do meu passado, talvez para rir da minha imensa imbecilidade, ou sentir pena, ou alívio, ou nada. Talvez, um dia, eu volte e olhe para tudo como uma estranha. E talvez eu seja só tão tão diferente dessa menina que é hoje, e ela não esteja mais presente, nem acorde com apito nenhum. Ou talvez eu não seja ninguém.
Às vezes acontece da gente se tornar ninguém.
Aí eu me emociono e sinto uns apertos estranhos, e a sensação de ter voltado no tempo; faz já alguns dias que eu entrei nessa de obcecar com o passado, mas isso é diferente de voltar. Proust entenderia e, mais do que isso, fdp, explicaria. Estar em dois lugares ao mesmo tempo não é necessariamente bom. E acho que tem aí uma influência do Cortázar, que há meses anda pairando sobre o criado-mudo, e eu pensei que talvez fosse agora o momento de atacar, ataquei, confesso, com alguma hesitação, e desconfio que não vai me fazer muito bem.
Mas coisas boas às vezes não fazem, mesmo. Nem ruins, se a gente for pensar. De repente, nada faz nada, nem de bom nem de ruim.
E agora que eu tô ficando louca, vou ali que tão me chamando.