Fui assistir à Vênus Negra.
Já conhecia a história e ainda assim levei uma pedrada.
Nem sei avaliar o valor do filme, enquanto cinema, mesmo, até porque essa não é a minha praia. Impressionismo e talz, mas eu gostei desse lance do filme, e principalmente a personagem-título, não se explicar demais. Não sei se tem nisso uma intenção de isenção ou imparcialidade no modo de contar a história, como se ela falasse por si, mas prefiro mesmo a não-explicação. A gente não sabe direito por que as pessoas fazem o que fazem, como exatamente chegaram até ali, e isso soa muito história. O silêncio, tudo que não é dito e é impossível saber.
E é uma pedrada.
Eu conhecia a história, mas não me lembro de alguns detalhes que não sei se são acurados, mas eu pensava, à partir de um determinado momento, algo como "ok, né, agora deu, por favor morre porque essa vida não dá" e a coisa ainda ia ladeira abaixo, e ladeira abaixo, e ladeira abaixo.
Fiquei pensando nisso da morte, muito porque até escrevi sobre isso ali atrás, sobre como acho pobre essa solução para uma trama, mas, sem mudar de idéia, cheguei à conclusão de que às vezes a história acaba e, então, tem mesmo que acabar. Não como recurso narrativo preguiçoso, mas porque o que havia para contar era aquilo e chegou-se, de fato, ao final. E é insuportável.
Bem que me falaram que o filme não poupa nada - e eu fique pensando que ele tem ali um milímetro de espaço, o menor espaço possível, para alguma coisa perto de boa, que eu não sei se existiu, não sei se é impossível não existir, se é possível viver sem ao menos um milímetro de espaço, de algo que pareça bondade, ou solidariedade, ou gentileza, ou respeito, assim, meio de graça. Não sei se é exagero imaginar que isso seja um milímetro ou, ao contrário, é ilusório acreditar que exista mesmo.
Depois, no ônibus, fiquei pensando que essa mulher não é como eu, e tenho noção de como isso soa racista ou preconceituoso e mesmo escroto, apesar de não ser essa minha intenção, minha crença, meu raciocínio. Mas ela é outra, porque nossas experiências e vivências são absolutamente diferentes. Elementar, diria um desavisado - exceto que eu ainda não sei o que penso sobre esse lance de natureza humana e de que todos temos alguma coisa em comum. Tendo a acreditar, apesar de resistir - ou tentar resistir. Só que aparece ali uma vida que vai além da minha imaginação, que dirá da minha realidade. É impossível para mim imaginar passar por aquilo, e imaginar como ela passou por aquilo, como, como?! Então eu sofro como e por ela e, afinal, parecemos iguais. Humanos. Mulheres. Mas a minha vida não é aquilo, e digo isso sem arrogância, mas com alívio e algum desespero, porque a de ninguém devia ser. Ela devia ser como eu. Num mundo ideal. E deve mesmo haver mulheres, e homens, e crianças, como ela e não devia haver.
Fui ver a Vênus Hotentote no cinema. Tivesse sido em casa, teria tido uma síncope daquelas, mas não gosto de chorar (quanto mais me descabelar) em público, então respirei fundo, tomei uma água e, no esforço da contenção, somado às reações mesmo à história, tive alguma taquicardia.
Não faz diferença e é coisa de criança, mas não devia haver.
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