Às vezes, até na maioria das vezes, acontece simplesmente da gente perder o momento, de ilimitadas maneiras; ou ele passa desapercebido, ou vem envolto em más horas, ou vem embalado em sono, fome, cansaço, vontade de fazer outra coisa, tantas as situações que fazem com que o percamos e, depois de ido, é questão central na vida saber se há volta.
Eu gosto muito de pensar em mim como uma pessoa gentil, muitas vezes não em relação àqueles que convivem comigo direta e cotidianamente, mas por oferecer um sorriso numa fila ou num ônibus cheio, por sempre pedir licença e dizer "obrigado" ao passar por uma multidão - coisa que me garante, apesar do tamanho, atravessar ajuntamentos consideráveis, com seguidos e repetidos "licencinha, por favor". E não deixo de me surpreender com o fato de nesse mundo tão hostil, em que as pessoas teoricamente estão envolvidas demais nas próprias vidas e fazem o que puderem para ferrar o outro, as pessoas abrirem espaço.
Tenho cá meu preconceito - que já se tornou conceito, mas sejamos politicamente corretos - com costumes de outras regiões em que as pessoas não têm essa delicadeza. Lembro de uma vez em que quase arrumei uma briga na rua, ao ser atropelada por um sujeito que andava com um saco enorme sobre os ombros, com o qual me atingiu em cheio, me fazendo dar uma pirueta. Até aí tudo bem, normal, mas o cara me vai embora sem nem olhar pra trás, pra ver se eu sobrevivi. Exageros à parte, mas não chega dá um calor no coração você esbarrar numa pessoa ao passar por ela e, ao virar para trás e pedir desculpas, ver que ela fez o mesmo, ou levantou a mão no mais simples dos gestos, mas que vem carregado de significados, de que sim você também é uma pessoa, que existe materialmente no mundo, que seu espaço foi invadido, mas sem más intenções, sem grandes consequências, só isso da gentileza?
Então eu sorrio muito, acho. Vez ou outra, numa esquina qualquer dessa vida, imagino (confesso que com alguma megalomania) que posso estar fazendo assim a mais leve das diferenças na vida de alguém. Nem por nada, só isso de a gente perceber muito levianamente que não está sozinho no mundo, que há por aí sorrisos - talvez meio como aquele cara que distribiu abraços de graça, com a plaquetinha e a gravação e tudo o mais.
Pois é, mas aí dia desses, eu no meio de uma situação de desafio, sendo requisitada por zilhões de pessoas e coisas ao mesmo tempo, tendo de lidar com vontades alheias que não deveriam ter nada a ver comigo, mas que a sociedade me impõe, me aparece uma pessoa com um singelo pedido, talvez num dos piores - não, com certeza no pior momento de sua curta vida, e o pedido nem era que eu lidasse com isso, ou ajudasse, ou fizesse nada. Só permitir, com esse poder sobrenatural que de repente me é atribuído, para ir ali, bem ali do lado, sair por um instante, sei lá fazer o que, sei lá que ajuda pode haver mas havia, a pessoa, uma criança, precisava sair e eu, no meio de todas as outras crianças, respondi automaticamente, com a face da autoridade, que ela esperasse. Nem nada grave, cinco ou dez minutos, e pode muito ser que eu não tenha sido obedecida, que ela saísse mesmo, sem eu ver e eu nem impediria nem faria retaliação, com ou sem pior momento da vida.
Tão aleatório isso do poder, né? Eu tento ao máximo dar aquela rejeitada, de não incorporar, ao menos totalmente, essa intromissão tão absoluta em vidas e corpos outros. Não por esse caminho, pelo menos.
É só que eu fiquei pensando que eu, que me considero tão gentil, poderia ter feito uma não-diferença naquele momento, num momento que importava, e não vi. Portanto, não fiz. Porque a vida é, ela, também o cúmulo da aleatoriedade, das coisas que percebemos ou não, cuja compreensão está ou não ao nosso alcance, da vontade que vem ou falta, e a roda gira.
Numa volta somos favorecidos para na próxima sairmos injustiçados. Ainda acredito que há aí um certo equilíbrio, talvez meio essa coisa de química mesmo que se entranhou em mim e não saiu mais. Talvez tanta coisa, que me tornam eu e tão contrária de mim.
É só que eu queria nem sorrir, queria nem saber, na verdade, queria nada, a não ser ter dito, tão sem importância, tão sem significado, sem ciência, mesmo só por dizer, queria ter dito "vai".
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