Estava aqui lendo algumas notícias dos últimos dias, grande parte das quais não deu para acompanhar de perto devido à correria que me impus no feriado. Estou há dez dias praticamente só viajando, daqui prali, de lá pra cá, e acompanhando na internet a eleição, e os comentários da eleição, e comemorando a eleição e etc.
Fui ver agora o Roda Viva com o Zé Dirceu e achei que o povo foi muito escroto e ele muito bem comportado. Sei lá, isso de todos os lados se acharem com razão, mas acho que faz parte de uma lógica que me parece inquestionável - apesar de aparentemente não ser - isso de você ter um entrevistado que pode falar. Achei foi que ele se saiu bem demais e não visto a carapuça de radical ou fã.
Mas aí fui procurar outras entrevistas dele e tem as fotos de quando ele foi libertado sei lá em que ano, trocado pelo embaixador americano e etc. e eu fiquei pensando. Revi aqui agora a resposta da Dilma ao Agripino Maia e fiquei pensando.
Isso das fotos desse pessoal tão, tão jovem, mais novo do que eu!, e que morreu ao lutar contra a ditadura. E eles fazem um certo mea culpa, dizendo que talvez não tenham escolhido o caminho correto, apesar de defenderem ainda ter lutado do lado da justiça, liberdade e outros desses valores que nos são tão caros. Eu super concordo e não sei é por romantismo ou mania mas acho que eles escolheram lá o caminho que achavam melhor e o valor da decisão está aí. Depois da história contada é estranho dizer o que é certo e errado; no calor do momento e sem saber o que viria isso meio que não existe, né?
Eu pessoalmente não sei se teria coragem de fazer o que eles fizeram; não sei hoje, aos quase 28, imagina coitada de mim aos 19.
Mas aí a gente vai ver as fotos e ver as histórias, assim levianamente, mesmo, e bate uma tristeza por essas vidas perdidas. Aí alguém responde "ah, mas hoje em dia também tanto jovem morre de maneira tão violenta..." [nem vou entrar na discussão sobre o valor da idade, como se estivesse tudo bem a morte de adultos e velhos, porque obviamente eu não acho nem disse isso] e é claro que alguém tem razão, razão demais, mas... percebem a diferença? Uma coisa é um acidente de carro, ou envolvimento com drogas ou vítimas inocentes da violência urbana, ou tantas outras tragédias que podem acontecer a qualquer momento e trazer um pouco mais de desespero e feiúra ao mundo.
Mas essa juventude, essa beleza e força que acredita numa coisa e morre por ela... quer dizer, sei lá, de repente eu que sou tosca, mas o ter um ideal. Talvez o mais importante para me emocionar seja o fato de ser um ideal com que eu concordo, ao menos como ideal.
E a pessoa ir lá e acreditar naquilo e ser morta e não ter chegado à minha idade, ou ter passado muito pouco dela; e não esperar, como eu espero, por um futuro que ainda parece imenso, que parece maior, ainda, do que qualquer outra coisa, e não ansiar pelo tempo que passa, e pelas coisas que vêm e vão, não achar que um dia vão sentir uma tranquilidade que dizem vir com a idade, não achar que as coisas e a vida vão poder ser melhores aos trinta, ou aos quarenta, ou aos cinquenta. E tudo isso, ou nada disso, por acreditar. Não sei como não ser romântica a respeito.
Quase parece um desperdício. "A juventude" e tudo aquilo.
Mas não vejo como, inclusive acho de certa maneira um desrespeito, falar em desperdício quando se acredita.
Quantas pessoas será que têm a grandeza, ou a dignidade, de morrer pelo que acreditam?
Pode muito ser que para elas não faça a mínima diferença, porque depois que se foi, foda-se o caminho que te levou. Mas para quem fica... achar que vale a pena, sabe? O preço conhecido e pago.
E eu sou mesmo dessa geração que choraminga não ter por que lutar. Geração classe média mimada e, pior, preguiçosa. Porque tem coisa demais pra gente lutar por essas paragens, não fosse a acomodação, o conforto, a letargia. A água que não bate na bunda. É só que ela bate, a gente é que meio que se acostuma e finge que não tá sentindo nada, qual o pintinho da piada.
Eu sinceramente não sei do que vou poder sentir orgulho, daqui a trinta ou quarenta anos. De que vou poder encher a boca para dizer que não me arrependo.
Não sei o que, hoje, me faz sentir que vale a pena. Tenho pensado demais nessa coisa da gentileza e, apesar de achar importante, é só para mim e parece pouco demais.
Acho que talvez, sem querer fazer demagogia, a história possa, afinal, me salvar. Isso das vozes, fazê-las ouvir; tem aí um engajamento que nem sempre aparece em primeiro plano mas que movimenta. Fico feliz, nesse sentido, pelo lugar que tenho o privilégio de ocupar, junto das pessoas que tive a oportunidade de conhecer.
Ainda parece pouco, já há muito tempo parece pouco, e eu venho quebrando a cabeça para decidir por onde ir.
Considerando que, bem ou mal, nossa realidade é outra, chego a acreditar que a resposta virá, meio que só porque eu fiz a pergunta.
Enquanto isso eu penso.
Um comentário:
Lindo!
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