Conversando esses dias com um amigo, ele me disse duas coisas que me vêm agora à mente.
Uma que morre de vontade de conhecer a Holanda.
Outra que não gosta muito do Brasil.
Qualquer pessoa que me conheça minimamente, ou tenha contato com qualquer coisa que eu diga, sabe que eu ando numa onda de amor à terra que tá difícil de segurar. Mas, por outro lado, entendo essa coisa do não gostar. Porque, afinal, há por esses lados muita coisa que é um saco, mas se a gente parar pra pensar, onde é que não há? E se tem coisa que me irrita profundamente é esse ufanismo imbecil que vejo de vez em quando, uma coisa meio vazia ou superficial - claro que em contraposição ao meu, fundamentado e profundo.
Eu sei que gosto, mas às vezes desgosto e entendo algumas pessoas que gostam e outras que não gostam. Sempre mantendo em mente que meu universo social é extremamente limitado.
Aí ele quer conhecer a Holanda. Super ok; eu já estive por lá, não digo que conheci que não faz parte da minha natureza isso de afirmar as coisas tão peremptoriamente, mas queres ir?, vai! e tudo aquilo. O sonho de cada um, a ilusão de cada um é problema de cada um. E há, mesmo, coisas muito legais que até eu admito ter vivido ali.
É só que agora estou um pouco irritada.
Porque recebi o contato de uma brasileira que vai para a mesma cidade em que eu estive. Até aí, tudo certo. Ela procura desesperadamente um alojamento por lá, como eu procurei e como todo mundo que eu conheci - aí conhecer, mesmo, não só de estar, mas conhecer do tanto que se pode conhecer as pessoas - também procurou. "O inferno da moradia" ou assim. Novela velha de guerra e que não pode despertar em mim senão simpatia e compaixão.
Mas como a pessoa chegou até mim?, pergunta o leitor desavisado.
Pois chegou através da figura de quem mais me aproximei em Holanda. Figura holandesa, obviamente.
Agora, o que meu cérebro subdesenvolvido não alcança, é o seguinte: o que a dita figura acha que eu posso fazer, do Brasil, depois de um ano e meio, que ela, holandesa em Holanda, não poderia fazer e melhor?
Porque: ela mora lá, conhece as pessoas de lá e, mais importante, fala o diabo da língua!
Eu penei como uma condenada, paguei sei lá quanto (merreca, mas isso de desperdiçar dinheiro também é contra a minha natureza) para entrar num site que arranja moradia para pobres desabrigados e não consegui entender nada dos anúncios nem me encaixar em nenhum deles. Vai lá tentar entender um site em holandês e depois a gente conversa.
É a mentalidade que me pasma.
O princípio, o conceito, faz sentido?
Isso que nós, aqui do sul, fazemos tanto, talvez colonizados que fomos, eles não sabem fazer.
É tão letra corrente que chega a ser irritante o fato de nos esforçarmos para receber bem qualquer pessoa que venha de fora; às vezes o clichê pode ser falso, como sempre pode acontecer com tudo, mas a gente vê isso acontecer. Vê as pessoas chegando aqui e se apaixonando, porque se integram. As pessoas que chegam de fora entram nos nossos círculos e fazem parte da nossa vida. Conhecem nossos amigos, partilham da nossa mesa, ouvem a nossa música. É um tal de levar para conhecer isso e aquilo que não tem fim. Pode até ser chato pra pessoa, porque fica todo mundo "mas ele já comeu tapioca? mas ele já comeu acarajé? mas ele foi numa roda de samba? mas ele blablablabla".
É um escrever e-mail para grupos de e-mail perguntando se alguém recebe um fulano que vem não sei de onde, só por uns dias, até ele se arranjar. E às vezes o fulano nem vem de longe, e às vezes é ingrato e fresco, como em histórias que já ouvi. Mas nós, que somos tão apáticos em tanta coisa, nos mobilizamos.
Talvez por complexo de inferioridade, talvez por memória histórica ou o que seja. Mas talvez, também, por sentirmos algum prazer em ajudar, mesmo que o auxílio se volte para o mais distante e não para quem está ao lado.
Detesto esse tipo de generalização, porque tem de ser falso. É claro que muita gente aqui é maltratada e a falta de solidariedade com o vizinho às vezes é gritante demais.
Mas as generalizações, por vezes, têm sentido. Revelam, ainda que através de um véu, realidades que podem ser sentidas, às vezes, na pele.
É só que não vejo sentido nisso. Se uma pessoa me escreve, dizendo que o primo do amigo do vizinho me indicou para ajudá-la a encontrar um lugar para ficar na minha cidade, eu não vou dizer-lhe para escrever para o outro lado do mundo, em busca do mesmo auxílio. Vou é colocar em ação, ainda que talvez inutilmente, a minha pequena rede social em busca de uma solução direta. O outro lado do mundo pode servir para partilhar experiências e aplacar esses medos tão comuns do desconhecido. Quem melhor para ajudar a aliviá-los do que um outro que passou por algo parecido?
Mas o meu lugar conheço eu.
De repente porque eu, sendo daqui, entendo o que significa ir para outros lugares a que não pertenço e que não me pertencem.
A figura pode ser que não.
E então, no meio da onda de irritação pelo que considero irracionalidade alheia, lembro do meu amigo e me pergunto. Penso que há aqui, com as merdas todas, dessas características que podem ser facilmente malvistas, mas que me agradam pelo calor.
Eu gosto do calor. Gosto de ser inverno e, com vento e o diabo, haver sol.
À figura, podia pensar que falta simpatia, esperteza, solidariedade.
Acho é que falta sol.
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