Hoje, no ônibus de volta para casa, em que, por um feliz acaso - e algum esforço da minha parte, principalmente dos pés -, estava eu sentada, vi depois do dito ônibus praticamente se esvaziar, um menino, ou melhor, dois meninos entrando. Um deles, acho, era daquelas pessoas que não ligam muita importância ao que ouvem, ou por achar desinteressante ou por não conseguir se concentrar, e não tentam muito disfarçar a falta de atenção. Ele carregava um guarda-chuva quase maior do que ele e vestia uma camiseta do colégio aqui do lado de casa. O mesmo colégio que atormenta minhas manhãs de sono com sinais de começo e fim de aulas e os gritos das pobres crianças fazendo educação física.
Esse menino não me interessou.
O outro, ao vê-lo, me causou alguma irritação, não sei bem por quê. Depois fui observando melhor, ele apontando para o companheiro, um tanto menor do que ele, um lugar para sentar. Devia ter, talvez, dez ou doze anos. Achei que ele tinha um jeito de homem adulto e só depois fui perceber que era porque ele calçava sapatos, sapatos, mesmo, não tênis ou sandálias, e trazia consigo uma maletinha, não de papel ou couro ou madeira, dessas de pano, mesmo, impermeabilizado.
Os meninos entraram quando o ônibus estava já em silêncio, ou melhor, quando as pessoas dentro do ônibus estavam em silêncio, e os sacolejos das ruas esburacadas faziam gemer a lataria aparentemente velha e com certeza meio solta do veículo. Eles são todos assim, os ônibus, ou esses ônibus, parece que vão se desfazer a qualquer momento e a gente toda vai cair sentada de bunda no asfalto.
Antes do silêncio, eu me irritava com o barulho ensurdecedor das pessoas falando, tão alto, entrando nos meus ouvidos tampados por fones e ocupados com música. Aquele burburinho, que se sobrepõe à música e ao gemer da lataria. Fiquei pensando no quanto eu gosto, ao pegar esse mesmo ônibus, mais cedo, quando ele se enche dos alunos da escola para deficientes auditivos que tem no caminho. São todos adolescentes, dos mais diferentes tipos, e eu me pergunto de onde eles vêm, e eles fazem toda a balbúrdia típica de adolescentes, se provocando mutuamente e conversando sem parar, em silêncio. Alguns eu já reconheço, acompanho o falar das mãos com uma curiosidade mal disfarçada, tentando entender ao menos o tom - tom, que ironia - das conversas. Sendo adolescentes, é possível imaginar o assunto sobre que eles discorrem; provavelmente, se bem me lembro, eles falam uns sobre os outros. E são muitos e em silêncio, falando. Aí eu começo a pensar se estou sendo preconceituosa, ou sei lá, e pode ser que sim, como pode ser que não, mas é fato que eu gosto de observá-los.
Acho que eu às vezes gosto de observar as pessoas, não todas, mas como o menino que usava sapatos e trazia uma malinha. Ele falava e falava com o outro menino, que meio que ouvia, acenava vagamente com a cabeça, olhava de um lado para o outro, apoiava a cabeça no guarda-chuva. Consegui captar da conversa, depois de ter desligado a música, que ele, o de sapato, falava sobre música; primeiro eu pensei que estava falando sobre os garotos do colégio dele, que na fila, em ordem crescente, ficavam antes e depois dele, que ele era entre alto e baixo, mas não, ele falava sobre música, em um coral, imagino. Que do lado dele ficam os baixos, e do outro lado eu não entendi, como talvez o menino do guarda-chuva, ele por não prestar atenção e eu por ouvir a lataria.
Será que o do sapato é um daqueles meninos chatos, que já se acha adulto, e se acha muito maduro e inteligente, um prodígio, como aquelas crianças superdotadas que a gente vê num programa de televisão, e querem inventar uma nova língua ou descobrir uma estrela, ou qualquer dessas coisas chatas, em vez de jogar bola, brincar de carrinho ou ficar pedindo sorvete pra mãe antes do jantar? Ou ele só canta num coral, por um motivo qualquer, talvez por gostar de cantar, e gostar do coral, e gosta de cantar e falar do coral, como a gente gosta de falar das coisas de que a gente gosta, sem ser necessariamente insuportável?
Fiquei curiosa pra saber para onde eles iriam, de sapato e guarda-chuva, já quase na madrugada de um outono que se faz sentir. Mas desci do ônibus, no ponto final, antes deles, e me dirigi, como sempre, para os lados de casa, talvez esperando ver se eles viriam na mesma direção, e sabendo que, de todo jeito, não importa, porque eles seguem as vidas deles e eu a minha, e eu não poderia saber quem é o menino do sapato, mesmo que num impulso perguntasse a ele; provavelmente ele me acharia uma louca e eu não ficaria contente com uma improvável resposta dele.
Então ele foi para onde deveria ir, e eu vim para onde deveria vir, e estamos ambos, talvez, nos lugares em que devemos estar.
Um comentário:
gosto demais do jeito que você escreve.
confesso que fazia algum tempo que nao entrava, mas tudo bem porque fazia algum tempo que não escrevia.
mas esse post, foi como ficar um tempo sem comer chocolate, e comer de novo e lembrar do gosto.
gosto do seu jeito bonito de escrever. e de ver.
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