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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Se

Que seria de nós se não fosse essa palavrinha?
Tão pequena, tão simples, passa quase batido e define tanto do que somos e fazemos.
Acho que a mais básica mágica que ela nos faz é aquela besteira sem tamanho do "se (preencha como aprouver) eu vou ser feliz!". Mesmo com exclamação.
Claro que normalmente a gente tem vergonha de falar isso em voz alta, ou mesmo de pensar em baixa, mas né? Tanta coisa que a gente faz, achando que essa porra de felicidade está logo ali, ao fim de uma curva, debaixo de uma árvore e ela vai que nem o arco-íris, andando sempre pra mais longe.
É só que é tão difícil não cair na armadilha.
Eu, por exemplo, sempre me imagino estudando numa biblioteca daquelas de cenário, com as estantes de madeira mostrando os milhares de livros e a escrivaninha com abajur, e a cadeira confortável e a luz agradável, querendo só estar ali, sem me levantar a cada dois minutos para beber água ou ir ao banheiro ou tomar café ou falar com um amigo ou ficar olhando as pessoas passando sem pensar em nada. Toda a imagem romântica do lugar e, principalmente, eu nele. O engraçado é que, apesar de reconhecer o absurdo, ainda ele me inspira. E enquanto isso eu sigo no meu meio-sim-meio-não-estudo, nas bibliotecas sem mágica ou na minha casa sem mágica, parando a cada dois minutos.
E depois tem as ilusões que se perdem. Eu percebi muito claramento assistindo a um filme, do mesmo diretor do Brilho eterno de uma mente sem lembranças, que se passa em Paris. O protagonista é o Gael García Bernal e ele faz um cara que vai do México para Paris, onde mora a mãe, acho que depois que o pai morre ou assim. Sei lá, perdi o comecinho do filme e nunca mais descobri. Mas aí tem umas cenas em que ele tá dormindo, lá em Paris, e aquela história toda e ele dorme numa cama sob a janela e... eu de alguma forma já estive ali, talvez não exatamente como o rapaz do filme, mas já dormi numa cama sob a janela e já estive em Paris e me lembro do cheiro. Nem um cheiro particularmente ruim, nem particularmente bom, só um cheiro que é diferente da imagem. Então a mágica desprende e se aloja em outros lugares.
Hoje, por exemplo, ela assenta no jazz. Nem conheço nada, absolutamente nada, mas a idéia de um bar com jazz tocando, talvez uma bebida quase intocada na mesa, o resto em silêncio. E bem pode ser, ou provavelmente seja, que em podendo ir ao bar, ouvir jazz, eu fique em casa de pijama assistindo televisão. Pode ser muito que o bar de verdade não chegue aos pés desse que eu mais intuo do que visualizo. Não sei se eu seria feliz ali, mas parece que eu chego um pouco mais perto do arco-íris ao imaginar.
Mas eu sinto vontade e sabe-se lá aonde essa monstra pode nos levar.

Um comentário:

Anônimo disse...

Estava com saudades de ler você. E hoje passo por aqui e encontro uma linda reflexão que começa pelo "se", e passa por Paris e um filme com o Gael Garcia que eu quero saber o nome!!! Escreve pra mi dizendo se você se lembrar? Bjos com muito carinho, de Paris. Le.