Tudo começou com um "a-moor".
Tava andando aqui em casa fazendo qualquer coisa, foi aí há uns dias, e comecei "a-moor, quero sentir o seu perfume; a-mor, lalalala felicidade" e foi indo até o famoso "que-que-queô".
Enquanto isso, ia me perguntando de onde veio. Porque né, de onde será que meu cérebro e minha boca tiraram um axé anos 90 do qual ninguém está falando, que não tá em comercial na TV ou rádio, que ninguém andou cantando?
Que profundezas são essas dentro da gente em que habitam essas memórias tão banais que de vez em quando são lançadas por forças desconhecidas à superfície?
Aí ontem, saindo do trabalho, perguntei se um amigo lembrava dessa música e ele, que sabe muito, fez a maior cara de espanto, afirmando nunca ter ouvido. Saí pensando em contatar a rede e perguntar se eu inventei a música.
Falei então hoje com minha amiga referência musical, bem mandei um áudio cantando pra ela, plenamente consciente da piada da coisa toda, e começamos a conversar sobre essas músicas e nossas memórias e tudo mais.
No fim, é do Netinho.
E dá-lhe falar do Netinho e coisa e tal, fui também lembrar de um fundamento importantíssimo, a meu ver, da minha personalidade e forma de me relacionar com o mundo, que aprendi com Netinho.
Foi assim: tava lá, nos anos 90 da vida, assistindo ao Vídeo Show, lembro muito, no quarto da minha mãe na tvzinha que o Sacha deu pra ela, e passou uma reportagem em que o Netinho recebia uma carta "das fãs". Mas não era uma carta normal, era um baita rolo de papel, com as folhas coladinhas a formar tipo um rolo de papel toalha, inteiramente preenchido por qualquer coisa - acho que eram marcas de beijo com batom vermelho ou que tais. E eu tenho uma lembrança também muito clara desse momento; ele lá falando que "nossa, que legal, tô emocionado" e a minha absoluta compreensão que ok, ele bem podia achar legal, mas veja bem, ele nem sabe quem são essas pessoas. Pra elas, ele é importante pra caramba, elas beijaram 78 metros de papel pra mandar pra ele, elas sabem um monte de coisa da vida dele e das músicas dele e etc, mas ele não sabe absolutamente nada sobre quem são essas pessoas. Porque né?
Acho que daí vem muito de uma coisa minha de não idolatrar ninguém. Gosto muito de muita gente, mas sempre desse jeito meio blasé, talvez, de ter noção de que meu gostar não significa muita coisa.
Contei essa história pra minha amiga, com a conclusão de que aprendi muito cedo uma lição sobre minha insignificância nesse mundo e aprendi com Netinho.
E é uma lição que nunca abandonei, penso ainda muito nisso, mesmo hoje - não chegou a fazer todo o caminho até o papel toalha, mas vira e mexe lembro "ah, tá bom, não importa tanto que você goste de x" e aí vou fazer outra coisa qualquer.
Pois bem, mas a viagem não parou aí. Nessa onda do axé, lembrei que tudo começou com um LP que eu e meu primo absolutamente amávamos, que eu não sei qual é.
E dá-lhe mandar mensagem ao primo, perguntando daquele disco que a gente ouvia muito que a capa é uma mulher loura em pé com os braços erguidos, vestida de branco, com umas luzes roxas, azuis e vermelhas. Será que daria pra achar no google assim? Mas claro que meu primo lembra perfeitamente desse disco, da banda do disco, das músicas do disco, que a gente deu pra ele de aniversário em 93 e mais um monte de coisas.
Então vou eu ouvir e pensar mais em outras lições aprendidas com axé anos 90.
O lance é que esse disco, para além do quanto a gente se divertia ouvindo e dançando, tem um monte de músicas do Olodum, que nós meninos brancos paulistas classe média meio que não conhecíamos. Também vale lembrar que anos 90, né? A gente era praticamente criança, não tinha acesso a quase nada, nem meios de sair descobrindo qualquer coisa para além do nosso mundinho. Eu acho que eu pelo menos não conhecia Olodum.
Mas a gente ouviu na rádio ou sei lá essa banda e gostou pra caramba, e ele ganhou o disco e a gente ouvia o disco alucinadamente. E no meio do disco tem "canto ao pescador" e ali, assim, sem nem nada, de repente a gente ouvia "sei que o mar da história é agitado e o Olodum a onda que virá em forma de dilúvio me despertar amor, em forma de dilúvio vem exterminar com sequelas racistas e trazendo ideais de amor e paz".
Aí né?
Eu brincando com meu primo que foda isso, que a gente nem sabia o que era racismo (e ele "nem sequela!") e a gente demorou mil anos pra entender que diabos ela tava falando, mas a gente curtia a banda e a banda dizia que tinha que exterminar. Aprendemos que racismo era ruim ali, quase sem querer, imersos na nossa vida classe média. Tem também toda uma questão de família que talvez já dissesse isso há um tempo e a música ressoou, mas de toda forma era uma banda fazendo um puta sucesso e dizendo isso.
Dizendo na forma de uma mulher branca loira cantando Olodum, o que também é uma questão, mas não sei. Entramos ali numa onda de axé e descobrimos por ela e outras o que era Olodum; lembro da gente ir atrás de disco deles porque em algum momento deve ter percebido que um monte dessas músicas que a gente gostava era deles e fomos atrás.
As mensagens do Olodum são bem fortes, de enaltação do povo e cultura negros, lembro muito daquela música em que eles falam do Egito e era uma coisa que eu pelo menos desconhecia. E que hoje muita meninada nas escolas também nem sabe, relegados que somos ainda a valorizar uma história branca.
Eu sei que isso tem mudado e a gente tem tentado mudar isso, no meio desse dilúvio nada redentor, mas só fiquei aqui pensando nisso que a gente aprendeu com essas músicas que uma galera acha só toscas. E em como essas mensagens também eram comerciais, vendiam e eram consumidas por muita gente por aí e como é importante essa merda de mercado na sua existência de merda também trazer consigo ideias de justiça e igualdade e ir além da superfície.
Podemos então debater o que é superficial e o que é profundo e eu também não sei dizer qual o momento em que saímos da superfície e chegamos a outro lugar, mas tenho pra mim que é importante uma criança ou adolescente aprender que é preciso exterminar sequelas racistas.
Depois se discute o que é racismo, por que o racismo é, se são sequelas ou não, mas pode ser que a própria discussão parta ali, do verso.
Enfim, era isso só, registrar aqui essa pequena viagem pela memória instigada por uma lembrança inadvertida de um "a-mmor".
Viva Netinho.
E Olodum.
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