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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Zero

Parte 1

Tava ontem bem cansada, nem bem vestida, saindo do trabalho e uma amiga me chamou pra um negócio de um show que ia ter no centro e ela queria ir e tinha já me dito antes que ia de todo jeito, com alguém ou sem ninguém. Naquelas de "ah, já tamos aqui, queria ir pra casa dormir, mas bora lá" fomo-nos nós.
Conversa vai, comida vem, estávamos comentando do show da Liniker e os Caramelows que vai rolar esses dias e uma delas "nossa, não conheço".
Eu do meu isolamento de gente velha achava que todo mundo conhecia já conhecia Liniker, mas ela não, e nem minha outra amiga com quem falava hoje mais cedo ao telefone.
Acho que minha irmã foi que me mostrou, uma época em que estávamos assistindo um programa de TV que tinha a música na abertura e eu, como é de praxe, viciei e ouvi oitocentos trilhões de vezes.
Mas fazia tempo que não ouvia e hoje, ao mostrar pras amigas, senti daqueles arrepios da cabeça aos pés.
Chega peguei a minha caixinha canela escolhida a dedo e coloquei assim pertinho pra poder cantar sem ouvir meus desafinos e achar que canto bem.
Mas que puta música, que puta arranjo, que puta voz e que puta vozes, e que puta malemolência.
Que mundo do caralho esse em que a gente vive, com todas as mazelas e toda a dor e esses sapos gigantes que temos que engolir e os tempos sombrios, e é agora que podemos ter uma Liniker.
Que tempos maravilhosos vivemos.

Parte 2

Sei lá quando escrevi esse texto, e por que ele ficou cá guardado e não saiu a fazer suas rondas, como já determinava o mestre Bernardo Soares, mas nessa noite cheia de viagens, calhou de vir ver o que se passava neste espaço e encontrei o texto meio acabado.
O fato é que fomos ao show da Liniker e foi das melhores coisas que tive o prazer de vivenciar nesta vida.
Claro que me lembro pouco do que passou ali, ficou mais a memória de uma alegria e de presenciar um momento foda, de ouvir músicas foda e pronto. Ainda depois me mandaram algumas fotos e vídeos, que eu tenho profissão de fé viver e não fotografar (besteira, eu sei, porque a memória também é importante, mas quem lembra que tem o aparelhinho da memória dentro da bolsa quando está transcendendo???).
Mas foi lindo, lindo, lindo, e eu estava lá e vou sempre me lembrar que foi lindo, mesmo sem bem lembrar como foi.
Dizia hoje de coisas lindas: o filme do Van Gogh, que coisa maravilhosa e linda; o filme do Capernaum, que coisa porrada e linda; o filme do Almodóvar, que coisa linda e só, meu preferido dele, porque me dou ao luxo de não sentir desconforto.
Não sei, não sei, não sei. Fomos longe, hoje, eu ao menos fui, falei com muita gente com quem não falava há tempos e o passado... Tudo no passado, o de nos tornar o que éramos, o lembrar de vozes, o descobrir coisas que vivemos e não vimos, perceber como éramos idiotas de não ver.
Idiotia Coletiva.
Dizia minha amiga: a gente sofria "muito com tudo. Tudo era sofrimentos do jovem werther" e nossa, como era, mesmo. Mas como a gente riu, como a gente se amou, como estivemos juntos como poderíamos estar e ser. Falando sobre isso, uma nova amiga ensinou que "vou mostrando como sou e vou sendo como posso, jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos e pela lei natural dos encontros eu deixo e recebo um tanto" e como a gente sempre é e só pode ser como pode.
Olhar o passado e nos reconhecer, mas reconhecer como somos hoje, olhando para aquelas meninas que já não somos, mas ainda somos, porque nos tornamos o que éramos.
Bernardo, cadê você que não está aqui ao meu lado para trocarmos uma ideia e uma massagem nas costas que me doem e eu não tenho o creme?
Mas é linda Liniker, e Van Gogh, e Almodóvar, e eu escrita.

Parte 0
É só procurar!

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