Dizia a Sandra Bullock, naquele filminho bobo que me agrada há tantos anos, que começos são assustadores, finais são tristes e o legal mesmo é o meio.
Eu nem tenho aquela ligação fortíssima com as festas de fim de ano, mas costumo me renderminimamente à atração da virada. Essa ilusão de recomeço tem um apelo ao qual é difícil resistir, sempre me vejo um tanto no clima, naquelas de pensar no que aconteceu e, sinceramente, esperar coisas maravilhosas dos doze meses que seguem, até a próxima virada e assim infinitamente.
Mas aí esse ano eu já tava meio de saco cheio e passei um tempo fora e nem pensei muito, nem desejei muito, nem fiz nada de muito diferente do que já faço todos os dias. Voltei, pensei: putz, preciso ir ali escrever qualquer coisinha, uma mensagem positiva para atrair boas vibrações, quem sabe prometo parar de mentir, mas até agora não soube muito o que dizer.
Nem sei ainda, mas a vida é a eterna tentativa, né não?
Mas me peguei, talvez ontem, pensando no Pink Floyd, que já foi minha banda favorita, dentro dos meus limites de não gostar muito de muita coisa. Ou gostar muito, na verdade, mas não ser fã. Não sei de nada sobre os caras, nem curto todas as músicas, mas gosto realmente muito de algumas e isso basta. Às vezes eu me surpreendo com a minha superficialidade, que vai de encontro ao alto conceito que tenho de mim mesma, mas contra fatos não há argumentos.
Aí já passei por uma fase de ouvir intensamente, depois um pouco menos, depois virou um certo tabu. Aquela coisa das associações que, vez por outra, te dão uma facada nas costas e músicas ou filmes ou livros ou lugares que você adorava são contaminados por acontecimentos que te forçam a enterrá-los bem lá no fundo, esperando talvez que eles sofram mutações espontâneas e possam eventualmente ressurgir, sem trazer consigo aquele monte de lixo que você varreu pra baixo do tapete. Ah, a arte da repressão.
Mas aí faz já alguns anos que eu vivo nesse processo, de ir colocando as coisas na geladeira pra um dia... Ao longo desse tempo, em momentos deveras especiais, estas músicas em específico, saíram pra dar uma volta, em dias ensolarados sem previsão de chuva, e tudo bem. Fizeram a trilha de encontros bacanas e levaram, pelo menos a mim, por viagens gostosas. E assim a gente vai criando outras associações, né?
O fato é que, nos últimos dias, não sei se por esses meus vícios fortes e passageiros, tava numas de ouvir um pouco de rock, coloquei na rádio e no mp3 e as guitarrinhas me ajudaram a me manter acordada em momentos difíceis, de hiperatividade exacerbada. A vontade era Deep Purple, mas por acaso, ontem, fui procurar no carro um cd que eu jurava estar ali e encontrei só dos outros, velhos amigos, Pink Floyd. Botei pra ouvir e lembrava mais de música nenhuma, a não ser um gritinho aqui ou ali que despertava em mim um afeto, mas lembrança nenhuma.
Já há umas semanas sentei com um amigo pra ouvir um dos cd's deles, o mesmo que há muitos anos a gente ficou ouvindo, talvez totalmente em silêncio, embalados por uma garrafa de vinho, já em outra vida, porque não é possível que aquela seja a mesma que essa.
Depois fui ouvir mais atentamente e comecei a lembrar dos gestos que acompanhavam as músicas e do drama que erigia em momentos de - total, talvez - loucura.
Aí, como há já alguns anos, começo o ano com essa trilha e é engraçado perceber como, de maneiras de fato muito diferentes, ela ainda se encaixa perfeitamente na minha vida.
Isso da gente mudar é tudo fingimento, né?
Enquanto isso, 2010 começou e já vai indo embora. 2010, é múltiplo de três, por isso me agrada, mas é par. Daqui a pouco faço 27 anos e nem tô muito me lembrando, nem tô sentindo nada de muito especial em relação a isso, pelo menos não nesse momento. Acho que tudo bem, 27, já sou adulta, mesmo, irremediavelmente, apesar de me lembrar agora de ter pensado num passado surpreendentemente recente ser apenas uma garotinha tentando participar de um jogo de gente grande que não entende, mas do qual não pode escapar.
Porque eu admito que é, de gente grande, e eu não sei jogar, mas não é sempre que minha ignorância me oprime.
O que oprime mesmo é ter de me arrastar pra fora de casa, pra comprar um aparelhinho de mp3, porque o meu finalmente pifou, me deixou na mão e sem música não tá rolando trabalhar. Senti aqui um pesarzinho por ele, companheiro em tantas viagens, que conhece o mundo tanto quanto eu. Já ficou preso em ônibus, atolados ou não, já foi apertado convulsivamente na expectativa de vôos, andou de bicicleta e barco e a pé e sumiu e apareceu mais vezes do que eu posso contar. Já era, o pobre, mas ele se foi fazendo o que mais gostava e acho que não sofreu muito.
E quem vai ter que se arrastar até o shopping num domingo sou eu, de todo jeito.
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