Esses dias, uma colega de trabalho fez aí algum comentário, não me lembro exatamente das palavras, mas na hora pensei no Kundera.
Há quanto tempo eu não pensava no Kundera?
Pensei naquela velha história das sinfonias (eram sinfonias?) e das pessoas as escrevendo (era escrevendo?) e de como é difícil compor em harmonia.
E, com o Kundera, nas dezenas (centenas?) de conversas que devo ter tido sobre ele, e "es muss sein?" e "muss ess sein" (pardon my german!) e há quanto tempo eu não pensava no Kundera?!?
A coincidência é que, assim sem querer, liguei a televisão e ia passar Anna Karenina e eu sem querer comecei a assistir e terminei - apesar de todas as dificuldades recentes que tenho tido em terminar qualquer coisa.
A ligação é óbvia para os iniciados, e o que eu me pergunto agora é o quanto esses livros participaram na minha formação. Li ali jovem; Kundera certamente na faculdade, Karenina pode ser que antes ou depois. Não sei dizer exatamente, sei que apareceu uma edição, azul, em algum momento da minha vida, e depois eu comprei a edição verde da Cosac & Naify, em tradução direta do russo. Que pira essa das traduções diretas do russo.
A gente entrou numa viagem ali, o papo da turma era a Leveza e tem o episódio maravilhoso do "você tem de ser mais leve" e etc., que minha amiga se apropriou e diz que foi com ela, mas não foi! Viu, L.?!? Você pode sair aí contando, mas nós conhecemos a verdade.
Era Kundera e Antes do Amanhecer a nossa onda e será que todos os jovens de vinte e poucos anos entram nessa onda? Já terão ouvido falar do Kundera? Vou indagar dos jovens e me preparar para a cara de espanto.
Vi o filme e não sei a Anna. Não sei se em algum momento entendi, ou se em algum momento deixei de entender - que baita personagem ele criou ali. Anna me instiga mais do que a Teresa, me deixa mais curiosa, volta com mais força. E eu lembro bem de toda a história, dos événements, ao menos, e assim sou lançada de volta aos positivistas; mas não lembro das passagens ou das explicações ou de quem tá contando a história e qual o papel desse narrador na nossa compreensão dela.
Talvez fosse o caso de voltar, mas sinceramente não sei se vou ou se, indo, termino - tenho tido essas dificuldades recentes em terminar as coisas. Engraçado, porque houve um momento em que eu era devorada por essa necessidade de chegar ao fim da história e, de repente, me comprazo no abandono. Será que a gente cresce pra aprender a deixar estar? E, outra coincidência: conversava esses dias com uma menina que se dizia potencialmente viciável e na hora entendi o que ela quis dizer. Como eu, buscando não se envolver ali nos caminhos sem volta, porque já é difícil largar um livro - um reles livro! Coisa tão desimportante! -, imagine essas paradas que entram na química do cérebro. Melhor ter cuidado.
É só que hoje são menos as coisas que me viciam, é menor a necessidade de saber o que aconteceu - ou são mais banais os mistérios impostos na atualidade. Mundo moderno e tudo o mais, e a verdade é que a gente já viu muita história, né? Quantas vezes assisto alguma coisa na televisão ou no cinema e vou completando as frases das personagens, não porque já tenha visto aquela obra, mas porque é óbvio o que eles vão dizer.
Serei também eu óbvia assim?
Os das antigas dirão que sim, que o que vou dizer agora é "não sei...".
Pois bem, não sei mesmo e fiquem vocês aí nas suas! Ora, querer interferir assim no texto de alguém!!
Mas era isso que eu vinha contar, que lembrei de Kundera e Anna Karenina assim, num espaço de dias, e atrás veio uma avalanche de memórias e angústias e conversas sem fim.
Como o errar.
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