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terça-feira, 27 de julho de 2010

Deus me livre de ser ladrão!

A sobrinha contando, totalmente do nada, de um dia em que estava na escola e todas as crianças brincavam no parquinho.
Eu imaginando os pimpolhos fazendo bolo de lama e pendurados no trepa-trepa.
A sobrinha continua, dizendo que fulano e fulano eram polícia e tinham que pegar os outros.
Entendo, afinal, que a brincadeira era o famoso polícia-e-ladrão, das brincadeiras favoritas da minha infância. Bate aí uma vontade louca de brincar e penso que não há mais oportunidades. Quase diria "tantas", mas o fato é que, há já muitos anos, não há nenhuma. Nem em reuniões de adultos bobos, querendo voltar no tempo, não surge uma alma santa dizendo "vamos brincar de polícia-e-ladrão?" Quem sabe, da próxima vez, se me lembrar, eu faço o papel de alma santa. Mas aí é aquela coisa toda, das roupas e sapatos inapropriados para correr, do almoço que tem de sair, da cerveja que vai esquentar, disso e daquilo que nos diferencia inexoravelmente do mundo da sobrinha.
Fica então a lembrança, principalmente do predinho, com sua piscina que não enchia e servia às vezes como cadeia, noutras como campo de futebol de gol-a-gol. Do quarteirão em que se brincava de fugir da autoridade, e ficar bolando estratégias e esconderijos para não ser capturado. Eu nunca fui uma criança veloz, apesar de não ser daquelas bobocas que ficam de fora da educação física. Gostava mesmo de esportes, era das melhores jogadoras de handebol, basquete e vôlei, só no futebol é que não fazia grande coisa. Mas ser das melhores jogadoras, afinal, nunca importou muito, visto as outras jogadoras serem normalmente metidas a dondocas que preferiam tricotar a marcar pontos. A prova mesmo era brincar com os meninos e eu normalmente não fazia tão feio, apesar de não figurar mais entre os melhores de nada.
Eu nunca fui rápida, mas tinha lá outras habilidades. No polícia-e-ladrão, era difícil me pegarem, porque eu ficava me movimentando, em vez de ficar escondida esperando ser encontrada. Se visse a polícia procurando num esconderijo manjado estava feita: esperava ela ir embora e me mocozava ali, porque ela não mais voltaria a um lugar em que já procurou. Lembro de uma vez em que uns meninos subiram numa pitangueira do predinho e pronto, acabou ali a brincadeira. Sei não como se descobriu que eles estavam lá, porque a tendência mesmo é a gente procurar a rés-do-chão, mas, mesmo expostos, era impossível pegá-los porque os do chão não sabiam subir aos ares.
Perguntei então à sobrinha se ela preferia ser polícia ou ladrão e a resposta, "deus me livre de ser ladrão", me pegou um pouco de surpresa.
Porque claro que todo mundo sabe que é muito mais legal ser ladrão, porque é mais divertido e mais fácil. A polícia vai lá, prende os caras, tem que deixar um guarda, mas mesmo assim os bandidos sempre conseguem se libertar, numas de "salva-o-mundo", e o trabalho não termina. E fugir é mais fácil que capturar.
Senti, talvez forçando a barra, um lance moral na fala da sobrinha. "Deus me livre de ser ladrão" . Não deve ter mesmo a ver com a brincadeira, alguém deve ter lhe ensinado - eu não fui, acho - que ser ladrão é mau.
Não duvido que seja um bom valor, mas que torna a brincadeira mais chata, isso lá torna.
Aí essa reflexão superficial entra na conta daquela outra, sobre as canções de ninar que sempre trazem imagens aterrorizantes. Das coisas que ensinamos às nossas crianças, né?
Problema gigante esse, porque também é um saco isso do politicamente correto. "Ah, então ser polícia na brincadeira é melhor, porque deus me livre de ser ladrão". Também é ser literal demais e levar as coisas a sério demais. Até porque isso da moral é amplamente relativo. Mas, sim, devemos ensiná-las a não roubar e tudo aquilo.
É só que, moral à parte, a diversão mesmo está em fugir e enganar. Na hora da brincadeira, o valor mais precioso devia ser o deus-me-livre-de-ser-chato.

2 comentários:

Lettícia disse...

Deus me livre de ser chato ;) E eu ando tão, mas tão chata :( rsrs Bjos. Lê.

Ricardo disse...

Tão bom.

:)