Tenho sido ultimamente assombrada pelo Kundera.
Na verdade, bem agora, eu dormia e sonhava com vampiros russos que faziam inseminação artificial em doze mulheres, mas não acordei assombrada e, sim, numas de "wtf?!". Eu digo sempre que meu inconsciente é burro e não se liga que pode fazer coisas totalmente absurdas enquanto eu durmo, e eis a prova. Quando ele resolve viajar vai até a Rússia encontrar vampiros. E antes disso, ontem, sonhei com "os outros" e foi bem apavorante - apesar de nada original. Aí, sim, acordei com medo e, confesso, como tinha ainda muito sono e voltava sempre ao mesmo sonho, para acordar assustada e voltar ao sonho e etc., tive de dormir com a luz acesa. Penso que até racionalizei a coisa, com a lâmpada incandescente e "os outros" não curtindo calor.
Mas o que verdadeiramente tem me assombrado é o Kundera.
Ele está tão ou mais presente do que na época em que li. Será que devo voltar? Mas tenho medo.
Há algumas semanas até peguei outro livro dele, que não a Insustentável, numa livraria, mas olhei bem para ele e decidi não. E mesmo assim tenho citado - o que eu lembro de - a Insustentável com grande frequência, brincando com o fato de "eu ter de ser mais leve" como ela, ou das sinfonias, ou do ensaio, ou do "tem de ser?" ou do final. Será que devo voltar?
Diria, se bem me lembro, o Kundera que a gente não volta. E o incrível é que perdemos um tempo gigantesco imaginando como seria a vida se, mesmo sabendo que é impossível. "Se?" não existe e ainda é nossa brincadeira favorita.
Mas é brincar com fogo e já diz o ditado que leva a fazer xixi na cama.
Eu aqui dormi e acordei e o sono se foi. Dói a cabeça e sinto fome e meio que só. Algo de frio, o verão insiste em não chegar, e as folhas balançam na palmeira debaixo da janela, e meio que só.
Eu pensando no Kundera, e na leveza que eu deveria ter, e na sinfonia, e no ensaio, e "não tem de ser", e no meio de tudo só o que dói é a cabeça.
Sem metáforas, ela mesma lateja de fome, má postura e hipocondria.
Kundera meio que me assombra, mas eu me acostumei aos fantasmas e me importo pouco com eles.
Desde que não sejam outros.
2 comentários:
Li Kundera com meus 15 anos, aquela coisa da "Insustentável..." e gostei. Mas perdi ao longo dos anos esse sentimento - na altura, achei que ia ser eterno.
Você mantém? Acho tão difícil persistir nas leituras, elas vão, difusas, pela vida.
Gostei muito do texto. E do blog. Acompanho há uns meses. Pode ser.
Oi, Miguel.
Eu acho que a gente vai mantendo coisas específicas que conhecemos, lemos, vivemos, e vai transformando tudo em outra coisa, uma coisa nossa, não sei.
Você me pegou, agora, com "a insustentável", de fato não sei se mantenho. Mas não é, insustentável? Viver? E tanto insuportável...
Também li o Kundera em outra vida, há uns 10 anos ou mais e não sei exatamente o que eu lembro e o que inventei sobre ele.
Que bom que gostasse do texto. E do blog! E que acompanha: olha que coisa, e eu achando que falo pra mim mesma apenas. Pois tás mais que convidado a voltar e, se quiser, se apresentar, dizer como veio, por onde, quando, por quê...
Pode ser o que, será, não?
E tem de ser??
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