Quanto tempo, numa vida, a gente passa esperando?
E esperando tudo, esperando a vida. Como diz Chico: esperando a morte ou esperando o dia de voltar pro Norte ou talvez no fundo alguma coisa mais linda que o mundo, maior do que o mar. Mas pra que sonhar se dá um desespero de esperar demais?
Pedro Pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar esperando, esperando, esperando.
O mais absurdo, no entanto, é esperar o passado. Porque o futuro ainda vem, mesmo que esperá-lo não seja lá muito saudável, qualquer que seja ele, mas esperar o passado é de fato das maiores imbecilidades que um ser humano pode cometer.
Explico: por caminhos tortuosos, nesse instante, em que deveria estar lendo enlouquecidamente, fui atraída de volta para meu antigo blog, que se encontra escondido, no exílio profundo de erros não-intencionais, não para ser um refúgio, onde eu posso escrever - ainda mais - anonimamente, mas como ode ao passado. Literalmente. Porque apesar de ter os textos todos, ou quase, copiados e salvos em back-ups que eu fazia regularmente, nunca tive coragem de simplesmente ir e apagar. Tantas dores que eu senti e expressei ali, tantas alegrias ou pseudo-alegrias, tantas promessas e esperanças de um futuro melhor. Reli os últimos posts, na verdade o antepenúltimo, de que eu não lembrava, porque os dois seguintes foram em momentos de que eu me lembro claramente, mas esse terceiro não. Ele é permeado com o máximo de leveza que eu conseguia imprimir às palavras, naquela época, e eu dizia que sentia que o passado acabou, que a pele era nova e um ciclo de mudanças se encerrara. Em fevereiro de 2008, vejam só. E, relendo, sinto uma amargura, que não sei se vem do texto em si ou apenas da lembrança do tormento que então me acompanhava cotidianamente.
E eu não sou uma pessoa de fingir que está tdo bem. Não escrevo no orkut ou no msn que estou fazendo isso ou aquilo de legal, vejam como eu sou feliz; muito pelo contrário, me considero de uma discrição até excessiva, que venho tentando superar para poder mostrar alguma coisa do meu mundo para o externo. Então, se, naquele momento, eu fingi que estava tudo bem, é porque acreditava piamente na ficção que descrevia.
Chega dá um cansaço, imaginando que daqui a um ano eu voltarei a ler isso aqui e arregalarei os olhos, pensando no quanto eu era boba e cega. Um cansaço futuro.
Mas mais ainda um cansaço passado e uma irritação de não conseguir, simplesmente, apagar aquele espaço e aquele endereço e, consequentemente, aquela memória, pois está provado que eu preciso de lembretes constantes e minuciosos, já que meu cérebro não é suficiente para me contar a história da minha vida.
Enquanto isso ele fica lá, escondido, ocasionalmente visitado por um viajante perdido que pede instruções que ele não sabe dar, esperando. Esperando. Esperando o quê?
Talvez eu pudesse simplesmente me auto-elogiar e dizer que não tento enterrar o passado displicentemente, que não estou fugindo, que estou afastada mas reconheço a grandeza de uma experiência que passou e não tento, simplesmente, me livrar dela, apesar de não sentir a mínima vontade de chamá-la para passear.
Como não trazer o antes gravado na pele? E numa tela de computador, porque as marcas em mim não são suficientes.
Talvez chegue o dia em que eu vou, simplesmente, apagar. Apesar desse post-protesto, essa hora não é agora e a saída é, enquanto ela não chega, esperar.
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem.
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