O aniversário veio e passou e a parte mais dramática foi o telefonema que não recebi, e agora não receberei jamais. A emenda, ao contrário do que diz o ditado, não saiu pior do que o soneto, mas também não foi muito melhor. Foi outro, enquanto eu queria aquilo.
Ainda agora dói, isso, o telefonema que não foi, mais do que muitas outras coisas, que também já não são.
Ficam, então, saudades muitas.
Aí estou, ao contrário de todas as expectativas, persistindo no Pessoa. Nem mais persistindo, na verdade, totalmente seduzida. Me habituei aos trechos, mas não ainda a querer grifá-los todos.
Gostei foi muito desse daqui:
"100.
Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular - jardim público ao quase crepúsculo -, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradadaos pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam."
Um comentário:
O Lenine deste lado. No youtube. Acústico do último pôr-do-sol, que agora anda aí muita na moda por causa de uma certa "vivência da vida".
Reparando melhor, vejo o Lenine aqui também. Ao lado e no próprio texto. No Pessoa.
Ah! nas últimas semanas liguei algumas vezes mas nunca deu. Deves ter mudado de número, provavelmente. Parabéns, pelo caminho.
O sotaque do Lenine é uma ponte transatlântica.
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