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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O bonde do dom

Tava aqui vendo uma filmagem adaptada do Dom Casmurro nessa beleza que é o Canal Brasil. Assim, quase sem querer, porque tenho tentado me manter num estado de só fazer o que tem um sentido muito claro na minha vida, numas de não perder tempo demais com coisas que não valem a pena. E me cansei de ver uma merda qualquer e depois ser assolada pela impressão desesperadora de que perdi duas horas da minha vida numa besteira sem tamanho, da qual não sobrou nem um meio sorriso pra eu poder fingir que compensou. Nem queria assistir, portanto, mas fiquei curiosa.
Aí toda a história do filme entra e se encaixa num tanto de coisas em que eu ando pensando e fico achando que posso contar.
Vale avisar que, indo totalmente contra meu estilo, há spoilers adiante.
Acho que a questão principal é que fiquei encanada com essa história de nego chegar e matar um personagem. Tão meio... não sei. Tenho um pouco a impressão - que pode ser totalmente absurda, admito, e ter honrosas exceções - de que as pessoas meio que não sabem o que fazer com ele e ponto, vão lá e matam. Quem que tava falando isso das novelas?, de que o bandido - e normalmente a bandida - tem sempre que morrer no último capítulo, como se não houvesse redenção possível, ou qualquer punição terrena não fosse suficiente. Quer dizer, ninguém vai preso para sempre em novela, ? Ou talvez seja aquele lance de que a história das pessoas/personagens tem de acabar quando acaba a história. Meio pleonástico, mas dá para entender o raciocínio? A última cena foi gravada, o último ponto colocado então meio que acabou tudo mesmo, sem mais nada a dizer tanto faz viver feliz para sempre ou terminar a sete palmos.
Ou então de que não há no mundo lugar para aquele fulano. Simplesmente não há e ele tem de morrer; só que eu sou daquelas que não aceita nada bem esse tipo de idéia e fica sempre achando que há que se dar um jeito, porque sou apegada às coisas e sempre acho que posso ter tudo e que pra tudo há um jeito. Muito simples e talz, só ir lá e "dar um jeito".
No final das contas, porém, a verdade é que qualquer história de qualquer pessoa termina em morte, não? Isso das coisas óbvias, mas o lance todo é que a história das pessoas a gente nunca sabe quando terminou, até terminar. Não pode a gente chegar lá e decidir colocar um ponto final e resolver o assunto (ou até pode, mas aí o sentido é totalmente outro), porque a gente nunca sabe quanto tempo tem ainda antes de o filme acabar. A vida com suas reviravoltas - penso no Kundera falando da falta de ensaio.
Mas não sei, talvez eu esteja só sendo muito chata, mas me parece algo pobre isso de ir matando o povo no último minuto. Sei lá, mata no meio, como uma personagem importantíssima cujo nome não vou dizer porque esse spoiler é muita falta de sacanagem.
Ou, como bem salientou um amigo meu, faz que nem o doido do Salinger, que me inventa de criar e matar o Seymour de primeira e depois passa a vida tentando consertar a cagada. Ou sei lá se consertar, e sei lá se ele matou o Seymour antes de nascer o Seymour, mas me parece uma idéia atraente. Mata no começo e depois se mata para tentar explicar. O Seymour eu super não entendo, como ninguém mais da família maluca dele. Tentei ler o lance lá do acampamento, mas o Seymour de 5 (7?) anos é demais para mim. Ainda assim, curto o lance todo do peixe-banana e etc..
Olho para minha estante e todos os grandes que vejo não mataram ninguém na última página. Mais uma vez admito que posso estar no maior barco furado e morder a língua em menos de cinco segundos, mas a impressão que tenho agora é essa.
Nem o Dom Casmurro, se bem me lembro, não termina assim. E o imenso do Brás, que morre antes de começar? Não um escritor defunto, mas um defunto escritor, não é assim?
De todo jeito, isso de simplificar me parece... barato. E pobre. E pouco... caleidoscópico. E não aquele quebra-cabeça invocado e às vezes chato que a gente meio que sofre para montar e que é mais parecido com a vida do que a imagem estourada com a luz tropical. O mistério, e a sombra, o desconhecido, o inalcançável e a dúvida, a incerteza. Não sei, estou numa onda meio tsunâmica de querer complicar tudo cada vez mais e mais e quando parece que sobra um pedacinho de mundo no lugar a gente vai lá e sacode ele. Assim, agramaticalmente, mesmo. Sacode ele todo, todinho.
Quem vê pensa. Que eu sou qualquer coisa além de uma garota muito da certinha.
Fiquei foi com vontade, vendo o filme, de mergulhar no mar, numa dessas tardes tão quentes que tem feito. Mergulhar e esquentar no sol e, depois, me agasalhar e esperar a noite chegar, com tudo que é promessa que só a noite traz. Sinto algo que parece um ímpeto de aproveitar o fim-de-semana, de descer, aproveitar para dirigir, e mergulhar. Como se eu tivesse fim-de-semana, ou semana; como se minha vida, dessa garota tão ordeira, não fosse um mundo em que tudo é possível. Como se eu tivesse patrão e ponto - e salário - para me impedir de fazer o que dá na telha.
Só que nada é possível, não agora, e minha rebeldia e meus impulsos e meu caos são mais pra dentro que pra fora.
Quase sinto tristeza pela prisão que lhes imponho, mas só quase, o fato é que a gente gosta assim.
A gente acha que vale muito o turbilhão interno, num exterior de aparente calma, a gente acha que tem aí uma idéia de verdade e pureza e não sei mais o quê que agrada. A gente gosta de ter as coisas meio em silêncio e segredo, como se assim fossem mais fortes, como se assim fossem porque são, não porque a gente quer mostrar. A gente quer mostrar, tanto que vem alardear, mas uma que é para ninguém, duas que, alardeando, é ainda segredo.
O coração selvagem.

2 comentários:

Loy disse...

algumas vezes sinto essa inquietude, por ter perdido duas ou menos horas da minha vida com algo idiota que não valeu nem um sorriso
talvez seja bom sinal. sinal que estamos percebendo que o apagamento de si que o cinema ou a TV trazem não compensam, quando comparados com a vida de verdade de podemos ter.

Ricardo disse...

Isto é tão bom que dói.