Eu e Mãe assistindo a um programa sobre o carnaval na tv.
Meio ruim, o programa, mas mostrava imagens antigas e tinha um povo falando sobre todo aquele lance do Zé Pereira e do entrudo que eu nunca entendi muito bem, e as marchinhas e os bailes e etc, tudo combustível para um festival de memórias e opiniões.
"País do carnaval" e etc e o que isso significa.
Eu cá do meu lado nunca fui a maior entusiasta da festa, apesar de tê-la curtido ocasionalmente. Como já curti ignorar ou fugir dela.
No meio de toda a baboseira que o povo do programa falava - um aparte: ultimamente, não sei se estou me tornando cada vez mais mal humorada e impaciente, mas tem me parecido que, sei lá, 90% do que ouço as pessoas falando por aí, ao vivo, no rádio ou na tv, é baboseira... - sim, no meio da baboseira um cara falou uma coisa com a qual eu concordo: carnaval é meio que uma referência aqui pra gente. Pode odiar, amar, criticar, fugir, mas é uma realidade com a qual somos obrigados a lidar - meio como natal e ano-novo.
E tem mesmo umas músicas muito legais - talvez principalmente aquelas que escapam aos grandes circuitos. E como "grandes circuitos" falo mesmo como uma paulistana sentada em uma cadeira no centro do mundo.
Mas as marchinhas e tal.
E a idéia, ou a imagem, de centenas de pessoas pulandinho juntas.
Acho legal demais de ver e de pensar.
Não tanto de fazer. Vou chegando à conclusão de que o lance todo de sair pulando entra para a categoria das coisas que parecem legais, mas quando a gente vai fazer, de dentro não é tão legal como é de fora. Como a história de tocar um instrumento, ou dançar flamenco. Quando a gente vê alguém fazendo parece mágico e há uma inevitável decepção em perceber que, na verdade, não há aí grande mágica, só mesmo uma grande parte de esforço e dedicação e (ausente em mim) algum talento.
Eu já me conformei um pouco com isso, ou melhor, me acostumei a não pensar, a não ser em momentos constrangedores, quando vejo a mim mesma dançando - o que é facilmente evitável. Porque também é legal ir lá e fazer o esforço, mesmo para alcançar um resultado medíocre.
Sim, pular no meio da galera não tem nada a ver com isso, mas... não sei, quando eu pulo no meio da galera não me sinto tão feliz quanto as pessoas que vejo pularem no meio da galera parecem estar. Acho que me sinto melhor vendo a felicidade alheia, seja ela real ou não, do que tentando me mesclar a ela. De repente é toda a questão de onde eu vim, mas também tem tanta coisa que faz a gente ser como é que não dá pra explicar, né? A família, a genética, a criação, sei lá o quê. Não sei o que me torna uma não-puladora e talvez haja aqui alguma de esperança de que, num momento em que fizer sentido, eu mude de time.
Insisto em ter essa esperança nessa coisa do "momento em que fizer sentido", em relação a tantas e tantas coisas que pode ser que eu seja afinal só e simplesmente burra.
Então, quem sabe um dia.
Hoje, não sou. Puladora.
Mas, hoje, eu gosto de assistir, com Mãe, a um programa imbecil e sair cantarolando as musiquinhas, e apreciar a diversão dos outros e esperar que, em algum momento, faça sentido.
Um comentário:
Vi há pouco tempo uma reportagem sobre aquelas escolas que perderam tudo (ou quase) no fogo. E a recuperação e o conseguir fazer, refazer, apesar de tudo. Não sei, há uma misto entre a demência, a ingenuidade e o sonho. Tenho dias. Mas aquela força, aquela vontade de reconstruir e voltar ao sonho comoveu-me.
No fim, é chamar o Chico:
"Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano
Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano
Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade
No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança"
Que gente grande saiba ser criança. É isto.
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