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sexta-feira, 8 de março de 2013

Lado a Lado

Acho que a primeira novela a que assisti foi... Dona Beija?
Ah, sim, eu já me debati sobre toda a questão de falar perguntando, quando deveria estar afirmando, à parte toda a questão de eu dificilmente afirmar muitas coisas, uma porque posso estar errada, outra porque aceitei há muito tempo a idéia de que tudo bem expor (pelo menos um pouco) minhas inseguranças em público. Pois sim, além de me questionar o tempo todo, internamente, e de às vezes essas dúvidas transparecerem no discurso, tenho ainda o hábito, sabe-se lá se bom ou mau, de falar perguntandinho. Até tive uma conversa sobre isso com um professor, um dia, queridaço, chamado Jim, e a interpretação dele sobre minha fala é que eu pergunto quando ainda não terminei de falar, e isso é normal. Tipo antes de vírgulas. Depois ele me mandou uma matéria debatendo o assunto, sobre como mulheres tendem a ser menos... agressivas talvez seja o termo, ao exporem suas idéias do que homens. Vai saber e não entrarei nesse mérito agora, mas sim, eu não tenho certeza (daí a interrogação) se a primeira novela a que assisti foi Dona Beija, numa televisão p&b que ficava no alto de uma estante de ferro cheia de livro no quarto dos meus pais.
Na minha casa nunca houve muito isso de censura, então eu via novelas da Manchete na maior. Vi depois Kananga do Japão, de que gostei muito, e Pantanal e diversas outras. Nos últimos anos, no entanto, dei uma desencanada do formato, principalmente porque é tudo tão a mesma coisa e eu comecei a achar um saco. Gostei, por último, talvez de O Cravo e a Rosa, das seis, e depois disso de Chocolate com Pimenta, que eu me atrasava toda vez pra aula de dança porque queria ver o fim. O apelo dessa última pra mim tem nome e sobrenome: Drica Morais. Genial, ela.
Aí não sei o que andou acontecendo em casa, minha mãe por algum motivo começou a assistir uma das seis bem bobinha e o lance todo mudou. Porque a curtição não era ver a trama besta, mas estar ali, vendo a novela juntas. Nessa, tempo vai, tempo vem, começou em finais do ano passado uma novela de época, chamada Lado a Lado, a ser protagonizada por duas mulheres. O ambiente - histórico, portanto potencial e concretamente irritante em diversos aspectos - era o Rio de Janeiro no começo do século XX e um dos temas centrais da história era o pós-abolição. Assim, bem pós, meio que olhando pro que aconteceu com a sociedade depois desse pepino ser "resolvido". Com aspas, e explico: resolvido mesmo nada foi, além da questão formal de não haver mais escravos; ou melhor, resolvido mesmo tudo foi e muito bem, porque apesar da Lei Áurea (que ainda é muita coisa) os egressos da escravidão continuaram a ser marginalizados, mesmo que de outras formas. Sim, a meu ver, as cotas entram nesse balaio, mas não é sobre isso que eu queria falar.
Pois sim, a novela enfrentou uma polêmica raramente vista na nossa televisão: discutir o racismo que existe na sociedade brasileira e de quebra, ou mais importante, o papel das mulheres naquela e, consequentemente nessa, sociedade. Eis que surgiu uma novela feminista.
Eu no segundo semestre de 2010 fui feliz. Sem adjetivações, feliz. Pelo lugar em que eu estava, pelo que já tinha feito, pelo que queria fazer e pelas pessoas que me rodeavam. Um dia, numa conversa regada a cerveja na saída da universidade, um amigo perguntou, não lembro por que motivo: mas então, você é feminista?
E eu não soube responder.
Era? Nunca tinha sentido - talvez muito parvamente - necessidade de me rotular assim. Fiquei algo incomodada, não com a pergunta, mas com a minha resposta. Eu nunca havia me perguntado isso, não fazia parte do meu universo de questionamentos e de definições sobre mim mesma.
Desde então foram-se quase três anos e, apesar de não estar tão feliz quanto fui, tenho ao menos uma resposta pronta. Sim.
Em meio a essa descoberta, passei a me dar conta de que essa não pode ser uma afirmação feita levianamente. Nem descomprometidamente. Existe aí uma necessidade de luta e de afirmação e de discussão, mais do que tudo de educação, porque é muito difícil isso de nadar contra a corrente.
Confesso que ainda sinto dificuldades em me assumir feminista, pois me sinto tão virtualmente ignorante de teorias sobre o assunto. Coisa que posso remediar num futuro próximo, mas o caso não é esse. O caso, acho eu, é que a gente não precisa ser especialista em nada para ser feminista. Tem por aí uns questionariozinhos que elucidam a questão, com pontos como: você acha que um homem e uma mulher devem receber o mesmo salário para desempenharem o mesmo trabalho?, e etc. Isso é feminismo.
Pois que, desde aquela primeira confusão, me vi cercada de (mais) mulheres maravilhosas, que pensaram comigo essa questão e me ajudam a formulá-la, me ajudam inclusive a me livrar de preconceitos e conivências dos quais é trabalhoso nos livrarmos. Mas é um processo e uma luta contínuos. Conheci até um (um, hein!) homem que, em meio a uma aula lotada, foi o único a levantar a mão quando uma professora perguntou se alguém ali era feminista. Entrei até numa polêmica com uma colega que debatia pornografia e achava que toda a história de exploração do corpo feminino e cagação de regra sobre como corpo deve ser não eram assuntos relevantes e eram "feministinhas". Ela não usou esse termo, nem poderia por não falar português, mas quis dizer algo nesse sentido. Descobri até um amigo que andava perdido, tão perdido e que, reencontrado, pensa como eu.
Ainda semana passada, falava eu com uma amiga não tão ligada nessas questões e ela contava como no trabalho dela o chefe (um escroto) dizia que ela era toda feminista, querendo, obviamente, depreciá-la. Ao que eu argumentei: meu, isso não é ofensa e eu acho que você devia comprar o rótulo, usar umas camisas lilases e com o símbolo e tudo o mais e quando o cara vier fazendo graça, chegar logo na voadora e dizer "sou feminista sim, meu amigo, e aí, vai encarar?!"
Não, esse não é um post sobre o dia internacional da mulher, para o qual estou meio que cagando. Para toda a história das flores e chocolates, que se fodam, e para todas as propagandas escrotas que aparecem na minha frente. Estou muito aí para o significado histórico da data e o que ele me diz é que sim, alcançamos muito, mas ainda há um mundo a ser conquistado.
Esse post é sobre uma novela que, com erros e acertos, ousou debater um tema deixado de lado por um número enorme de pessoas. Que ousou colocar à frente duas mulheres, uma branca e uma negra, uma de origens humildes e uma de origens aristocráticas, duas lutadores que se tornaram amigas. Que ousou terminar a trama não com os casais (heterossexuais, sim, mas vá lá) felizes, mas com as duas protagonistas reconhecendo a importância que tiveram nas vidas uma da outra.
Porque mulheres podem ser amigas.
E eu acho isso lindo.

2 comentários:

Ju Taruga disse...

Não sei se vc já viu esse vídeo ( http://www.youtube.com/watch?v=MXJqspNwGGE ), mas já que o assunto é feminismo, eu logo lembrei dele (já que a novela eu só vi o último capítulo mesmo). Daí é aquela coisa, dá pra falar tanto sobre feminismo e sobre ser mulher que não ia caber aqui, mas podemos tentar marcar um café/cinema/cerveja pra papear! :D

M. disse...

Ju, ainda não vi, mas está na minha lista. Agora estou em choque com as palavras daquele infeliz presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Confesso que não acompanho de perto todo o imbróglio, de como esse senhor foi parar ali, porque meu estômago não permite, então vou vendo assim meio de longe e me afasto rapidamente. Mas olha, como diz uma amiga minha: me poupe, viu.