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sábado, 3 de maio de 2008

Babel

Babel.
Terceiro filme que vejo do Iñárritu. Antes, por acaso, Amores perros; depois, intencionalmente, 21 gramas. Este, um dos filmes mais marcantes que eu já vi, me lembro até hoje do caminho: um colega de faculdade, conhecido como Gulliver - que aliás eu pensei ter visto essa semana num ponto de ônibus, mas me enganei -, mandou um e-mail para o grupo, dizendo que o filme era maravilhoso, que ele foi ver numa sala de cinema com dez pessoas, cinco das quais saíram antes do fim.
Depois o anúncio, o acordo, lembro com quem vi, quem mais estava ali, o cheiro da sala e o momento fenomenal em que finalmente entendi o que se passava na tela. E é pena, porque é como o Cem anos de solidão, uma vez na vida, mais só se formos acometidos por amnésia.
Aí, buscando no imdb o modo correto de escrever esse nome - que eu não aprendi, mas copiei - vi que ele fez um dos curtas do 11 de setembro - 11' 09'' 01, que eu vi na mesma sala, em parte na mesma companhia e com o mesmo cheiro, que tem o curta do Sean Penn que eu juro por deus quase me matou. Onze e tal minutos, simplesmente maravilhoso, daqueles momentos em que dá uma puta vontade de levantar e ir embora, porque já foi suficiente.
Eu pensava nisso mais cedo, vi esses dias um programa sobre pessoas que realmente têm distúrbio alimentar, não são só frescas como eu, tinha um cara que vivia - juro que é verdade! - de sopa de tomate com macarrão enlatada e sorvete. Aí o programa era uma tentativa de terapia de um mês, em que um monte de gente tentava trabalhar com a pessoa, descobrir o motivo do problema e como superá-lo. O objetivo era a pessoa em questão, depois do mês, sair pra jantar e comer alguma coisa que estivesse no menu. As pessoas não conseguiam muito, mas vale a intenção - ao menos valeu preu saber que meu problema não é assim tão grave. Mas o ponto é: uma das coisas que eles diziam (eu ao menos acho que eram eles, mas pensando melhor poderia ser qualquer outra pessoa, ou não pessoa, dado o fato que eu costumo sonhar com essas merdas)... ah, ok, definitivamente não eram eles, era um cara falando numa dessas revistas sobre como ser mais feliz ou assim, e ele dizia que um dos nossos defeitos era ficar escolhendo demais, então ele sugeria, por exemplo, que o leitor fosse a um restaurante e, em vez de olhar o cardápio inteiro (perceberam o ponto de ligação? menu, cardápio...), simplesmente escolher a primeira coisa que agradar, sem procurar depois se tem outra melhor. Então, mais cedo, eu pensava nisso. Não do cardápio, porque eu sou gulosa, escolho a primeira coisa de que gosto e se vejo outras apetitosas, faço por voltar ao lugar para experimentá-las - ou fico o resto da vida pensando se o prato seria mesmo maravilhoso. Mas, na vida, será fragilidade, insegurança, o que, será, a gente achar que a primeira opção pode mesmo ser a melhor? Se pode ser ruim a gente ficar pensando que na página seguinte tem coisa melhor, também não é perigoso parar na primeira página? Mas tem coisas na vida que são tão certas. No filme, 11 de setembro, 11 curtas, acho que o do Sean Penn é o décimo; até ali, eu via e achava legalzinho. Depois desse, a certeza, absoluta, que nada poderia ser melhor e superá-lo, o que se mostrou verdade. Então eu penso que de vez em quando a gente sabe. É como o Cem anos de solidão, na primeira página você sabe que é um dos melhores livros que você vai ler na sua vida, sem mais nada, sem comparação, sem experimentar, é uma certeza quase sobrenatural que nos toma quando nos deparamos com algo verdadeiramente grande. Eu escrevi há pouco sobre isso, a primeira cena de um filme que nos faz saber que ele vale a pena. Acho que a vida também tem isso, no momento em que acontece e depois, é uma união que permanece, o bem-estar e a certeza de que esse momento vai ficar marcado.
Então, Babel. Confesso que não gostei tanto quanto de 21 gramas. Poderia até dizer que esperava mais, mas não sei, é um ótimo filme, desses que a gente não percebe o tempo passar. E faz a gente pensar, a coisa da torre - eu não sei nada de bíblia, mas sei que tem lá, uma torre, de Babel, que era pra chegar no céu, mas aí as pessoas tiveram de se afastar tanto para construí-la que criaram línguas diferentes e no fim não conseguiam mais se comunicar pra acabar a construção. Confere?
Diz a wikipedia que não, mas é assim que eu me lembro de alguém me explicando, um professor que eu não sei se de história ou dos idos tempos do ensino religioso.
De qualquer maneira, isso das pessoas falarem línguas diferentes aparece muito bem no filme, às vezes de maneira explícita, outras, mais sutil. A maior sutileza está, claro, nisso da gente se ver. Eu me ver. Perceber ali uma solidão que é minha, apesar de não ser nada minha, talvez exatamente por não ser. Isso me fascina tanto, a solidão; acho que o filme trata disso e eu, sem nada dessa genialidade, venho falando disso, escrevia no Idiotia Coletiva, e agora escrevo no Errar sem fim. Que errar é esse, senão uma busca maluca por alguém que nos ouça, tantas vezes nós mesmos que, preocupados com a busca, nos tornamos surdos à nossa própria voz.
Durante muito tempo eu acreditei que era isso mesmo que nós todos fazíamos aqui. Vagar sem propósito. Errar sem fim. Mas, às vezes, não sei se isso se chama fé ou se é só o desespero de um náufrago que vê em qualquer palito uma tábua de salvação, mas, às vezes, eu quase acredito que é mentira. Como se houvesse alguma coisa no mundo maior do que eu, não que governa a minha vida, mas que me coloca diante de diversas estradas e que me é dado escolher entre elas, e mais, que esses caminhos são bons. E eu quase consigo acreditar que é verdade, enquanto eu penso que essa fé, ou desespero, provém unicamente do fato de que na minha vida ainda não aconteceu nenhuma tragédia grande o suficiente pra me fazer duvidar. Caso alguém esteja me ouvindo, eu prefiro continuar podendo acreditar, hein? Sem nada doloroso o suficiente para trazer a dúvida final.
Sem saber mais o que dizer, eu olho para a televisão. A cena que vejo traz uma história, minha, que me faz perceber que eu estou viva. Uma vez, uma pessoa me disse que nunca esteve tão viva como quando sofria pelo fim de um amor. Desculpe, Pessoa, nada pessoal, mas meu mundo cor-de-rosa - como, aliás, o meu pijama - me permite ainda acreditar que eu estou viva agora, como estive antes e como estarei, mais, se, porventura, em algum momento, em algum lugar, se uma força maior consentir, se paralelas se dobrarem por força própria ou alheia, se dois mundos colidirem, se agarrarem e permanecerem assim unidos, por um segundo ou mil. Se alguma vez parecer que o errar acabou ou simplesmente teve um sentido, isso eu chamo de vida. Se não existe, é uma fantasia pela qual vale a pena levantar da cama de manhã.
Mas eu sou só uma garotinha romântica, de pijama cor-de-rosa, e não conheço nada dessa senhora tão garbosa, que a Pessoa chama de vida.
Nós falamos línguas diferentes.
Babel.

Um comentário:

Loy disse...

e eu com meu pijama de gatinhos acho que...
não entendi o que eu queria dizer. deixa pra lá.
Lindo texto, Ma.
(acho que era isto)